Apesar de queda da devastação, especialistas temem pressões sobre a Mata Atlântica

Carolina Gonçalves – Repórter da Agência Brasil 

Brasília – Em pouco mais de duas semanas, deve ser divulgado o novo levantamento sobre a situação da Mata Atlântica. O monitoramento é feito anualmente pela Fundação SOS Mata Atlântica a partir de imagens captadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

As imagens mais recentes do bioma (2010-2011), que abrange 17 estados, mostram a redução da devastação, incluindo o desmatamento e as queimadas. Apesar da tendência de queda, especialistas temem que as pressões exercidas sobre essas florestas alterem essa trajetória.

Como o bioma é cercado por áreas muito populosas, convive com a constante ocupação. “São desmatamentos pequenos para a expansão de casas [chamado efeito formiga] e quando você vê já foram destruídas áreas grandes. A gente não consegue acompanhar desde o início porque as imagens usadas no monitoramento só captam áreas maiores de 3 hectares”, explicou Marcia Hirota, diretora de Gestão do Conhecimento da SOS Mata Atlântica.

Quase 120 milhões de pessoas vivem nos arredores da Mata Atântica, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Os estados que abarcam o bioma respondem por 70% do Produto Interno Bruto (PIB).

Ao lado da importância econômica dessas regiões, estão os serviços prestados pela floresta que as circundam. A biodiversidade da mata, considerada uma das mais ricas do mundo, é responsável, segundo especialistas e o governo, por regular o fluxo dos mananciais hídricos, assegurar a fertilidade do solo, controlar o equilíbrio climático e proteger encostas de serras, evitando desmoronamentos como os que vêm sendo registrados em Teresópolis e em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

“A preservação da mata ciliar é uma garantia de sobrevivência para essas populações. Não é simplesmente porque é a casa dos bichinhos, mas é pelos benefícios às pessoas”, disse Marcia. “A água é um assunto que todo mundo entende. Se aquelas nascentes, protegidas pelas florestas, desaparecerem, não teremos água para consumir”, completou.

O estado do Rio de Janeiro vem registrando redução da devastação e o modelo adotado de criação de áreas protegidas privadas e públicas, para manter a diversidade biológica, é apontado como eficiente.

Números do Instituto Estadual do Ambiente do Rio (Inea) mostram que desde 2007 a área das unidades de conservação com proteção integral passou de 117 mil hectares para 204 mil hectares. A proteção aumentou com a criação de quatro parques estaduais (Cunhambebe, Costa do Sol, Lagoa do Açu, Pedra Selada ), a ampliação de mais três parques (Ilha Grande, Três Picos e Serra da Tiririca) e da Reserva Biológica de Araras e a criação de duas áreas de proteção ambiental (APA) estaduais (Rio Guandu e Alto Iguaçu).

Marcia Hirota lembra que o Rio já esteve no topo da lista de devastadores entre 1990 e 1995, com cerca de 140 mil hectares atingidos. De 2010 a 2011, a área devastada somou 51 hectares. “A maior parte do que resta da Mata Atlântica está nas mãos de particulares. A criação de reservas particulares é importantíssima. Foi uma redução violenta, com os menores índices verificados”, disse.

Quanto ao remanescente de vegetação nativa do bioma, a maior parte permanece sem proteção e está fragmentada. O governo federal estuda formas de incentivar a conservação e o uso sustentável, como a recuperação de áreas degradadas.

Os ambientalistas esperam confirmar a trajetória de preservação do bioma – formado por florestas, restingas e manguezais, que já ocuparam aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros quadrados. Pelos dados do governo, cerca de 22% da cobertura original estão mantidos e em diferentes estágios de regeneração. Aproximadamente 7% da mata estão bem conservados.

No último levantamento, mesmo com a queda da devastação na Bahia e em Minas Gerais, os números ainda preocupam. Em Minas Gerais, por exemplo, do bioma que já cobriu 46% do território, 27 milhões de hectares, restam apenas 3 milhões de hectares. A Bahia assumiu a segunda posição no ranking com o desflorestamento de 4,6 mil hectares de 2010 a 2011.

Edição: Carolina Pimentel

Falta de saneamento básico, de mata ciliar e de hábitos dos brasileiros ameaça rios

Carolina Gonçalves  – Repórter da Agência Brasil 

Brasília – Milhões de reais destinados à despoluição de rios nas cidades poderiam ser economizados se os governos tivessem investido efetivamente no tratamento de esgoto e a sociedade brasileira mudasse padrões culturais, na avaliação da bióloga Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica.

O alerta será uma das bandeiras do Encontro Nacional pela Mata Atlântica, conhecido como Viva a Mata, que ocorrerá às vésperas do Dia Nacional da Mata Atlântica, em 27 de maio. As palestras e debates da nona edição do evento, organizado para sensibilizar as pessoas sobre a importância da floresta, terão como foco os direitos e deveres ambientais no país.

O encontro começa hoje (24) na Marquise do Parque Ibirapuera, em São Paulo, com atividades também no Museu de Arte Moderna (MAM). Na abertura do evento, que termina domingo (26), será lançada campanha pelo cumprimento do Código Florestal.

Para Malu Ribeiro, a situação das bacias e rios do bioma deve entrar nas discussões. A partir de dados do governo, a bióloga disse que a falta de saneamento básico e a ausência de mata ciliar nos rios e nascentes têm levado algumas regiões ao colapso. Segundo ela, o Sudeste é uma das que mais sofrem com as consequências desse cenário.

“A população desses estados perde o efeito regulador de clima proporcionado pelas florestas. É esse serviço que, no período de seca, faz com que a vegetação contribua para manter o nível dos lençóis freáticos e, na época de chuva, evita a erosão de encostas”, explicou. “Nunca tínhamos visto uma seca extrema no Rio Grande do Sul como tem ocorrido nos últimos anos, com produtores enfrentando problemas graves e tendo que receber água de caminhão-pipa”, completou.

Malu Ribeiro disse que em todas as capitais dos 17 estados que abrangem a Mata Atlântica há rios contaminados. “A perda da mata ciliar tem gerado grandes contaminações provocadas por restos de metais pesados dos chorumes, substâncias que vêm de cemitérios e que o subsolo acaba levando para os rios”, explicou.

Nas áreas rurais, segundo ela, o problema é o uso intenso de agrotóxicos que acabam chegando aos rios, e, nas zonas urbanas, a falta de tratamento de esgoto, a poluição e os resíduos lançados a céu aberto.

Nas cidades, segundo ela, os brasileiros não mostram preocupação com a escassez de água e nem com o desperdício. “É um luxo cultural negativo do Brasil, que acha que tem muita água. Precisamos lembrar que a água não é distribuída igualitariamente, por exemplo. A gente vive a cultura da abundância e do desperdício: canta no chuveiro, lava calçadas, brinca no tanque. Mudar esse comportamento é muito difícil”, disse.

Para a bióloga, o novo Código Florestal pode representar uma ameaça ao bioma. A lei, aprovada há um ano, deve ocupar grande parte das discussões previstas para o sábado e o domingo no Ibirapuera e no auditório do MAM.

Representantes de várias organizações não governamentais vão lançar uma campanha nacional com o lema “Cumpra-se”, pelo cumprimento do Código Florestal e a instalação do grupo de acompanhamento do código em São Paulo.

Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, explicou que o objetivo é mobilizar as pessoas para acompanhar a implementação da lei. Esta semana, a organização e outras entidades voltadas para as questões ambientais lançaram um observatório na internet que será usado para monitorar tudo o que está sendo feito nos estados, nos municípios e pelo governo federal, como o cadastramento dos imóveis rurais do país e a regulamentação dos incentivos financeiros para os produtores que preservam.

“Já que as regras estão valendo, queremos acompanhar a implementação. O CAR [Cadastro Ambiental Rural] tem dois anos para ser criado e quem vai implementar e quais são os gargalos? Queremos saber isso”, disse Mantovani.

“No caso da Mata Atlântica, temos uma lei específica, mais restritiva, que é o código para a região e que está valendo. Não permite, por exemplo, tirar um remanescente de floresta de secundário estágio sem fazer uma documentação mostrando claramente o interesse social e a utilidade pública da obra, como estradas”.

Mantovani lembrou que cada um dos 17 estados tem dificuldades e características particulares. O Rio de Janeiro tem 90 mil propriedades para serem cadastradas. Na Bahia e no Paraná, o número de imóveis rurais chega a quase 400 mil.

“Em São Paulo, a questão da cana-de-açúcar é muito forte. Na Mata Atlântica, não há mais conversão de floresta para agricultura porque os locais disponíveis hoje são de difícil uso. Vamos ter que fazer um programa mais voltado para a regularização do que existe”, explicou.

Edição: Carolina Pimentel

Veja como foi o Abraço da Guarapiranga 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O abraço da Guarapiranga reuniu cerca de seis mil pessoas em três diferentes pontos do manancial, na zona sul da capital paulista. Como em todos os anos, a intenção foi alertar a população e as autoridades para a degradação dos mananciais e o risco de colapso no abastecimento de água.

A Rede de Olho nos Mananciais, que reúne ONGs ambientalistas, movimentos sociais, universidades, instituições religiosas e diversas organizações da sociedade civil, promoveu no último domingo (30/05), a quinta edição do Abraço da Guarapiranga. Realizado em três locais diferentes às margens da represa, o evento, reuniu cerca de seis mil pessoas entre o Parque da Barragem na Av. Robert Kennedy, o Solo Sagrado em Parelheiros e o Parque Ecológico do Guarapiranga, no Jardim Ângela. O sol, que brilhou o dia todo, colaborou para o sucesso do simbólico gesto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No Parque da Barragem, a Associação Cultural Zumbi dos Palmares organizou rodas de capoeira enquanto a ACM-Jabaquara fez um arrastão com o Maracatu Ilê Aláfia que conduziu as pessoas no abraço simbólico. Houve também passeio ciclístico, plantio de árvores, oficinas de educação ambiental. Grupos de escoteiros, escolas, universidades, clubes esportivos, associações culturais e ambientalistas estiveram presentes nas atividades.

No Jardim Ângela, a tradicional caminhada da Paróquia Santos Mártires até o Parque Ecológico Guarapiranga reuniu católicos e evangélicos das comunidades da região. Lá realizou-se a celebração religiosa e ao meio dia as pessoas deram-se as mãos para abraçar a represa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em Parelheiros, no Solo Sagrado (sede da Igreja Messiânica Mundial), a programação começou cedo. As 8h30, os voluntários iniciaram um mutirão de limpeza, seguido por oficinas de reciclagem, ikebana, horta orgânica e atividades culturais. Às 12h00 mais de duas mil pessoas se deram as mãos para abraçar a Guarapiranga.

O Abraço é uma demonstração de carinho da população com a represa, uma festa e também uma manifestação de indignação e protesto, pois o crescimento desordenado das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, as ocupações irregulares, os desmatamentos e o despejo de esgoto e resíduos, vêm comprometendo a capacidade de produção, armazenamento, tratamento e distribuição da água.

Atualmente uma enorme quantidade de plantas aquáticas (aguapés e alfaces d’água), boiam na superficie das águas da Guarapiranga. Estas plantas, da família das macrófitas, se reproduzem quando encontram ambientes ricos em fósforo e com grande quantidade de material orgânico, ou seja: esgoto. São um indicador da qualidade da água, que é bem ruim no momento.
Os mananciais de São Paulo também estão ameaçados com a implantação do Trecho Sul Rodoanel, que provocou desmatamentos e tem induzido a ocupação. As organizações ambientalistas denunciam que as compensações ambientais previstas durante o processo de licenciamento da obra ainda não foram implementadas.

Sobre as edições anteriores do Abraço Guarapiranga

2008
A terceira edição do Abraço Guarapiranga foi realizada no dia 1º de junho de 2008, abrindo as comemorações da Semana do Meio Ambiente. Ocorreu simultaneamente em três pontos diferentes ao redor da represa e contou com a participação de cerca de sete mil pessoas. Shows, passeio ciclístico, velejada e expedição fotográfica marcaram a edição 2008 do evento.

2007
No dia 27 de maio 2007, foi realizada a segunda edição do Abraço. A coordenação do evento contou com 35 organizações não governamentais e apoio da Prefeitura de São Paulo. O evento reuniu 5 mil pessoas. Antecedendo o abraço, no Jardim Angela/M’Boi Mirim, foi realizada a romaria Senhora das Águas. No Solo Sagrado, além do ato ecumênico, foi realizado plantio de árvores por autoridades políticas e religiosas. Entre as autoridades presentes, estavam o Prefeito de São Paulo, o Presidente da Sabesp, e todos os subprefeitos da região.

2006
O primeiro Abraço na Guarapiranga aconteceu em 2006 em comemoração aos 100 anos da represa.A iniciativa foi proposta pelo Instituto Socioambiental (ISA) e contou com a adesão de cerca de 10 organizações não-governamentais da região. O evento aconteceu simultaneamente no Parque Ecológico Guarapiranga, no Solo Sagrado e nas proximidades da Barragem da represa. O público estimado naquela primeira edição foi de 4 mil pessoas.

Saneamento: você sabia?

  • 99% das obras no setor de saneamento programadas para o ultimo governo não foram concluídas em 2010.
  • 56% dos brasileiros não possui rede coletora de esgoto (IBGE – PNSB /2008)
  • 92% das casas no NE brasileiro não possui serviços de esgoto.
  • 50,8% dos municípios brasileiros ainda utiliza “lixões” como destino final dos resíduos sólidos (IBGE – PNSB 2008)
  • Cerca de 1/3 das cidades no Brasil tem leis para proteção de mananciais.

Saneamento no Brasil

Apesar da importância para saúde e meio ambiente, o saneamento básico no Brasil está longe de ser adequado. Mais da metade dos domicílios brasileiros (56%), ou cerca de 25 milhões de lares, não possui qualquer ligação com a rede coletora de esgoto. IBGE – PNSB 2008 ) e 80% dos resíduos gerados são lançados diretamente nos rios, sem nenhum tipo de tratamento.

O descaso e a ausência de investimentos no setor de saneamento em nosso País, em especial nas áreas urbanas, compromete a qualidade de vida da população e do meio ambiente.

O setor de saneamento é o setor da infraestrutura nacional que apresenta o pior nível de desenvolvimento. Segundo a assessoria da Casa Civil, somente 1% das obras programadas via Casa Civil foram concluídas para o setor. Do total de 1.820 obras vinculadas à pasta, 1.114 foram iniciadas (24%), 296 (5%) estão em fase de ação preparatória.

Enchentes, lixo, contaminação dos mananciais, água sem tratamento e doenças apresentam uma relação estreita. Diarréias, dengue, febre tifóide e malária, que resultam em milhares de mortes anuais, especialmente de crianças, são transmitidas por água contaminada com esgotos humanos, dejetos animais e lixo.

Em 2008, mais da metade, 56% da população brasileira não tinha acesso à rede coletora de esgotos e apenas 28,5% dos municípios brasileiros tratavem seu esgoto. Nesse mesmo ano, quase um quarto da população não tinha acesso à rede de abastecimento de água.

Apesar dos números apresentados acima, as pesquisas específicas sobre saneamento ainda são escassasas. O ultimo quadro foi apresentado em 2004, no Atlas de Saneamento do IBGE, que teve como base os dados da Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), divulgada em 2002, combinado com informações do Censo 2000 e de instituições do governo e universidades.

A avaliação da abrangência dos serviços de saneamento no País feita pelo IBGE considerou a existência ou não de serviços de saneamento nos municípios, independentemente de sua extensão, eficiência e quantidade de domicílios atendidos. O resultado é que a maioria dos municípios brasileiros, cerca de 97,7%, conta com rede de abastecimento de água e apenas metade deles possui rede de esgoto. Ainda segundo o Atlas, mais de 77,8% dos domicílios brasileiros tinham acesso à água potável em 2000, enquanto apenas 47,2% das casas eram servidas pela rede de esgoto.

Ainda segundo esta pesquisa, entre os 5.507 municípios do País, mais de 1,3 mil enfrentam problemas com enchentes. A coleta de lixo é amplamente difundida, porém a grande maioria dos municípios (63,3%) deposita seus resíduos em lixões a céu aberto e sem nenhum tratamento. Os aterros sanitários estão presentes em apenas 13,8% dos municípios brasileiros, e apenas 8% deles afirmam ter coleta seletiva.

A ausência de investimentos em itens tão fundamentais como os serviços de saneamento têm impactos sobre a saúde da população e o meio ambiente. Um estudo da FGV, (Trata Brasil) afirma que O SUS recebe cerca de 800 pacientes/dia com doenças causadas pela falta do serviço. (FGV-Trata Brasil) entre as principais estão as principais – dengue, malária, hepatite A, leptospirose, tifo e febre amarela – que estão diretamente ligadas à má qualidade da água, às enchentes, à falta de tratamento adequado do esgoto e do lixo.

A pesquisa do IBGE demonstra grande desigualdade na distribuição dos serviços pelas grandes regiões do País. A região Sudeste se destaca como a área com os melhores serviços de saneamento. Por outro lado, as regiões Nordeste e Norte são as que apresentam os piores índices. No Nordeste, mais da metade dos municípios não conta com rede de abastecimento de água e de esgotos.

Abastecimento: você sabia?

  • 14 mi. de pessoas não têm acesso a redes de distribuição de água. (PNBS 2008)
  • Cerca de 8,4 bi. de litros de esgoto são gerados diariamente no Brasil. (Instituto Trata Brasil)
  • 36% de todo esgoto gerado no Brasil é tratado. (Instituto Trata Brasil)
  • Com 1/2 dos 300 lt de água consumidos por dia por brasileiro já seriam suficientes para sanar as necessidades ligadas a alimentação, higiene e outros. (Instituto Trata Brasil