De Paris ao Rio Doce: do horror político ao horror econômico

Os atentados em Paris e o crime ambiental em Mariana não são hierarquizáveis; o problema consiste em minimizar uma das tragédias por determinadas conveniências

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) – Outras Palavras

Muita gente no Brasil está falando sobre os atentados em Paris, com mais de cem mortos, em comparação com a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI, o rompimento de barragens em Mariana (MG), com mais de 20 mortos e desaparecidos e uma destruição incalculável do ambiente, entre espécies extintas, impacto por décadas e ameaça direta à sobrevivência de um rio importante, o Rio Doce.

Existe a percepção de que a tragédia francesa abafará a tragédia brasileira. E a verbalização dessa percepção gera um ruído: como se quem dissesse isso fosse indiferente a cada francês morto e ao horror específico dos massacres em Paris, à covardia e ao fanatismo. Com isso se cria um falso problema. Ou, no mínimo, secundário: a nossa suposta insensibilidade. A dos cidadãos, a dos internautas.

E não, não somos nós os culpados. Existem dois horrores simultâneos acontecendo. Um deles é político, mais precisamente geopolítico: o horror que desemboca no massacre de Paris, nos atentados de 11 de setembro, no atentado ao Charles Hebdo, movido também a profundos abismos religiosos e culturais, potencializado por ações tresloucadas e cinicamente moralizantes do Ocidente. O outro horror é econômico.

“Horror Econômico” é o nome de um livro da escritora francesa Viviane Forrester, que dissecava com qualidade literária, em 1996, a lógica abominável de nosso sistema econômico, e as farsas discursivas utilizadas para perpetuá-lo. Era um libelo humanista em defesa dos trabalhadores, da vida e do ambiente, e sobre a planejada cegueira coletiva em relação às desigualdades inerentes ao nosso sistema de produção.

O economista francês Jacques Généreux respondeu no ano seguinte que o horror era político, e não econômico. E deu esse nome ao livro: “Horror Político”. Tanto pela estratégia de poder dos governos (em parceria com as grandes corporações) como pela aceitação dos cidadãos, pelo silêncio, pela incapacidade de reação, de se fazer outras escolhas.

Horrores simultâneos

Os horrores coexistem e são simultâneos, muitas vezes convergentes. Mas há diferenças. Dos arredores da Torre Eiffel (feita de ferro) ao ferro extraído irresponsavelmente em Mariana há uma hierarquia de fatores, e não de dor, uma gama de responsabilidades específicas. O Estado Islâmico e a Vale não representam o mesmo campo ideológico; nem a mesma religião; nem têm os bolsos recheados com a mesma intensidade. Um aposta no desespero como recurso político; a outra aposta no amortecimento.

O Estado Islâmico é um inimigo conveniente para o sistema. O que não o exime de seus horrores. A Samarco, não. A Samarco é o próprio sistema. A Samarco é a brasileira Vale e a anglo-australiana Billinton. A Vale tem capital japonês, tem dedo do Estado brasileiro, tem fundo de pensão, tem o Bradesco. A Vale é o sistema que se perpetua diariamente nas páginas da imprensa – tanto as jornalísticas como as publicitárias.

E, portanto, essa mesma imprensa cantará com mais força o horror distante, com o inimigo consensual. Não há possibilidade de “acidente” em um massacre movido a metralhadoras, e fica decretada a impossibilidade de contextualização (nunca de justificação), de tentarmos entender o que acontece, por que acontece esse tipo de barbárie e qual o papel dos que não se julgam bárbaros na perpetuação dessa violência.

No Brasil, define-se uma lógica contrária. A morte de milhões de animais, a destruição de um povoado inteiro (que não mais existirá), as cinco crianças mortas ou desaparecidas e a incrível sequência de impactos ambientais (como a falta d’água em municípios inteiros de Minas) são tratadas como se fossem um mero detalhe, “desculpa aí, foi mal, mas nós geramos empregos na região e somos muito bem intencionados, nós somos o desenvolvimento”.

Não foi um acidente

O papel da imprensa graúda é o de reforçar a imagem de um “acidente” – como se esse acidente não fosse inerente a esse sistema econômico genocida. Não fosse também o horror. Alguns profissionais nos grandes jornais resistem e produzem notícias importantes. Mas o problema é o dimensionamento. Não haverá avalanche noticiosa sobre o desastre ambiental como o volume de exclamações sobre Paris. O efeito geral, a médio prazo, é o de minimização.

Um dos problemas desse noticiário é que ele só reporta os espasmos dos conflitos políticos e econômicos. Só as erupções. E não o rio diário de impactos sociais e ambientais. Precisaríamos criar uma cultura de acompanhar o sistema político e o sistema econômico de forma mais orgânica, para que não apenas enxuguemos gelo midiático a cada tragédia. E entendamos melhor o que leva a tudo isso. Sempre questionando o poder – e não as vítimas.

O mundo não está dividido entre “os loucos do Estado Islâmico” e “as necessárias empresas geradoras de emprego”. Que se multipliquem as nuances e os adjetivos. Sem ilusão de que nossa sociedade e nosso modo de vida seja superior. Nós também temos (e no poder) nossos fanáticos, nossos obsessivo-compulsivos e nossos psicopatas. Basta de naturalizar um modelo violento de apropriação dos recursos naturais sem que os trabalhadores e a sociedade possam dizer: “Não. Desengatilhem essa metralhadora”.

Nem água nem terra

O rio São Francisco já passou por esta área, onde é hoje o quintal de uma casa na comunidade de Pau Preto. Foto: João Roberto Ripper

por CibelihHespanholHelen Santa RosaJoão Roberto Ripper | Agência Pública

As crianças encharcadas de meninice nos convidam a brincar no São Francisco, no norte de Minas Gerais. Nascidas e crescidas ao lado de suas margens, elas sabem, mesmo com a farra inventada, que o rio já não é o mesmo. Arregaçamos nossas calças até os joelhos e entramos em um dos braços do Velho Chico, utilizado pela comunidade do Quilombo da Lapinha, no município de Matias Cardoso. E percebemos que as águas, de tão baixas, podem ser atravessadas a pé sem muita dificuldade. Crislaine da Conceição, de 10 anos, conta, brinca nas águas do São Francisco quase todos os dias. “Mas o rio está muito baixo. Antes a água ficava aqui [põe a mão sinalizando a altura do peito], agora está aqui [aponta para os pés]. Nem dá pra brincar mais como a gente brincava antes”, diz.

Crislaine é uma criança vazanteira, integrante de uma população tradicional que vive nas áreas inundáveis do médio São Francisco. Nessas comunidades, o rio é parte da casa e da vida de cada um. Todos os dias, crianças e adultos vão até ele para pescar, tomar banho, usar suas águas para cozinhar e lavar utensílios. Mas, há alguns anos, os vazanteiros vêm enfrentando dificuldades para produzir mandioca, milho e feijão, devido à secura e à poluição do São Francisco. “O rio significa para mim a minha vida. Sem o rio não sou ninguém”, diz Maria Aparecida Paz, a Dinda, em sua casa no Quilombo da Lapinha. É seguida por Dermira Borges, a Deca, que complementa: “É, o rio é um pedaço de nós. A gente nasceu e se criou no São Francisco. Rio vivo, nós vivos. Rio morto, nós mortos”.

Além das dificuldades crescentes para o cultivo, os moradores se preocupam também com a falta de peixes. “Antes era o seguinte. A mulher estava cozinhando, você dizia: ‘Vou lá pegar o peixe’. Ia com a vara e o anzol, e na hora você já tinha peixe pro almoço e pro jantar. Hoje é uma dificuldade muito grande para pescar. Você chega até a margem do rio, olha, olha e não vê um peixe, nada”, lamenta Manoel Ferreira de Souza, mais conhecido como Manuel Saruê, vazanteiro e pescador.

As comunidades vazanteiras combinam atividades de agricultura, pesca, criação animal e extrativismo e se distribuem por território segundo os ciclos naturais das águas, procurando manter acesso a regiões fertilizadas por matéria orgânica em margens e ilhas. São chamados de “povos das terras e águas crescentes” porque estão sempre acompanhando o rio, de modo a mudar suas casas e áreas de plantio de acordo com os períodos de cheias e baixas do São Francisco.

Chegar até eles é ser logo tomado pelas crianças que nos acolhem. Em meio às conversas, meninos e meninas puxam nossas mãos, brincando e rindo, e logo nos levam até o fundo de suas casas, onde mora o São Francisco.

Thaislaine Rodrigues, de 11 anos, vive na ilha de Pau Preto, também pertencente ao município de Matias Cardoso. Seu dia a dia é como o de toda criança. Às 6 horas já está de pé, ainda sonolenta, mas animada com o dia que começa. Toma café e vai para a aula, que diz ser tão divertida que quase não vê o tempo passar. Quando volta, ajuda a mãe no almoço e na limpeza da casa. À tarde, faz seu dever da escola e brinca com os irmãos, os gêmeos Gustavo e Breno, cinco anos mais novos.

O que faz diferir a rotina de Thaislaine da de tantas outras é a presença silenciosa e constante do São Francisco, rolando suas águas no fundo do quintal. O café tomado de manhã, tão logo a menina acorda, é feito com as águas do rio, que também lavam a casa e são usadas para cozinhar o almoço da família. Bem à vontade no São Francisco, ela conta que todos os dias vai até ele: “Quando é 5 horas da manhã a água está tão morninha! É muito bom tomar banho aqui”. As mudanças não passam despercebidas nem para seus olhos de criança. “O rio está mais seco, cheio de areia. E tem muita coisa lá dentro, umas ostras que não tinha antes. Coisas sujas”, diz.

O Velho Chico em crise

O São Francisco é o maior rio que “nasce” e “morre” em território brasileiro, brotando na serra da Canastra, em Minas Gerais, e desaguando no oceano Atlântico ao fim de seus 2.863 quilômetros de extensão. Sua bacia hidrográfica abrange 503 municípios de seis estados – Minas Gerais (36,8%), Bahia (48,2%), Pernambuco (10,9%), Alagoas (2,2%), Sergipe (1,2%) e Goiás (0,5%) – e o Distrito Federal (0,2%). E suas águas passam pelos biomas do cerrado, caatinga e mata atlântica, fazendo do Velho Chico fonte essencial para a vida de pessoas e comunidades.

Há alguns anos, cerca de 13 milhões de pessoas que vivem das águas do São Francisco vêm notando que o seu Velho está diferente. Para Ruben Siqueira, pesquisador e integrante da Articulação São Francisco Vivo, é uma evidência “até para quem não quer ver” de que o rio está à míngua. “Temos reservatório operando com o mínimo, uma mancha negra que surgiu na baixa de Paulo Afonso, vários indícios de crise”, disse. A atual seca do São Francisco é considerada a pior dos últimos cem anos, o que compromete o uso do rio como fonte de alimentação, higiene e transporte pelas comunidades que vivem em seu entorno.

Em junho, o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco lançou a campanha “Eu viro a carranca pra defender o Velho Chico”, como forma de chamar atenção para o momento crítico. Claudio Pereira, coordenador da Câmara Consultiva Regional do Médio São Francisco, lembra que a situação do rio já é denunciada há 30 anos. E a crise atual é produto do abandono do problema. “O governo, nas escalas municipal, estadual e federal, vê o rio como um recurso infinito e não percebe que não se trata apenas de água, mas de um contexto social, cultural e econômico vulnerável que pode a qualquer momento acabar. Além da escassez da água, o rio sofre com o uso de agrotóxicos, produção agroindustrial, esgotos domésticos e de grandes indústrias, demandas de irrigação… São interesses econômicos que têm prevalecido em detrimento das capacidades e condições do rio São Francisco.”

Em relatório divulgado no ano passado, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas traz levantamentos sobre a situação do rio, examinado em 258 estações de monitoramento. Entre 2013 e 2014, a bacia do rio São Francisco aumentou em 3% o seu nível hipereutrófico, o que caracteriza elevada concentração de matéria orgânica, comprometendo o uso de suas águas. E registrou uma densidade de cianobactérias superior a 50 mil células por mililitro (o valor máximo permitido para uso de recreação e contato primário é de 10 mil células por mililitro). O São Francisco está entre os que tiveram as piores condições em relação aos ensaios ecotoxicológicos, que detectam efeitos tóxicos causados em organismos-teste. Nas amostras utilizadas do rio, foi observada a letalidade dos organismos, apontando para um “efeito agudo” de toxicidade, que pode estar associado a esgotos domésticos e efluentes industriais.

Tão logo ouvem a pergunta “o rio mudou?”, as crianças vazanteiras do Quilombo da Lapinha disparam sua lista de impressões: “Está seco, muito baixo… Ele antes era alto, não tinha mato no meio dele”, diz um grupo de meninos e meninas após a brincadeira em suas margens. Em Pau Preto, caminhando na extensa praia que a secura do rio deixou à mostra, Thaislaine conta que fez um trabalho na escola sobre o São Francisco. “Eu também já fiz uma pesquisa aqui com a professora e meus colegas. A gente queria ver como o rio está. E ele está muito poluído”, diz. Sua mãe, Maria Edna Porto, reclama do mau cheiro das águas, que pode sentir de sua casa. “É a primeira vez que eu vejo o rio desse jeito. Eu fico preocupada porque por enquanto a gente tem água. Mas e daqui a uns dez anos? Se o rio acabar, os vazanteiros não têm como sobreviver”, afirma.

Em Pau Preto, a secura compromete o transporte por balsas – meio utilizado pelas crianças para irem à escola. Agora, elas precisam acordar mais cedo para fazer o caminho por terra, o que acrescenta pelo menos uma hora no percurso até a aula. O nível das águas está tão baixo que muitas áreas guardam apenas uma lembrança de já terem sido habitadas pelo rio, adivinhado na terra úmida e em pequenas conchas encontradas no chão. Nessas áreas, praias extensas, Davi Rodrigues toca seu gado a cavalo. Devido à dificuldade em manter a atividade de pesca, o pai de Thaislaine precisou se dedicar à criação de animais para sustentar a família.

 “Por que o rio São Francisco está tão seco e poluído?”, perguntamos às crianças vazanteiras. E elas apontam a falta de chuva, típica do semiárido mineiro, como motivo principal. Iudi Gonçalves, de 11 anos, indica outro possível motivo: “É por causa dos empresários que tiram água da gente”, acredita. E Cícero Lima, da articulação Vazanteiros em Movimento, dá razão ao menino: “Crise toda vida teve, essa não é a primeira. O rio ficava seco, mas se recuperava. Hoje, pega um metro de água de um afluente ou chuva, os projetos de irrigação tiram dois”, diz.

O projeto a que Cícero e Iudi se referem é o Jaíba, que, mesmo em face da situação crítica do rio, segue desviando suas águas – mais especificamente, 410,3 milhões de metros cúbicos por ano. Em atuação há mais de 40 anos no norte de Minas Gerais, o projeto de irrigação é criticado por movimentos sociais, que denunciam a taxação desigual entre pequenos e grandes produtores.

Para os vazanteiros, o projeto Jaíba é sinônimo de temores. Pouco se sabe das consequências do desvio de águas de um rio em crise, do qual necessitam para sua sobrevivência. Além disso, sua atuação já deixou marcas na vida do povo das vazantes. Em sua política compensatória, o projeto significou a expulsão do seu território tradicional, quando dezenas de famílias vazanteiras tiveram de sair para que fossem criadas Unidades de Conservação.

Quando preservar é excluir

Construído para ser o maior projeto de irrigação da América Latina, o Jaíba possui mais de 18 mil produtores beneficiados no norte de Minas Gerais. Alguns de seus canais, que utilizam águas do São Francisco, são maiores do que os próprios braços do rio. Fruto da parceria entre os governos federal (Codevasf) e de Minas Gerais (Ruralminas), sua implantação teve início nos anos 1950 e se expandiu durante os anos 1970 com o empréstimo do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), instituição financeira do Banco Mundial.

De lá para cá, foram quatro etapas de operação do projeto. Na segunda delas, no final dos anos 1990, foi imposta uma política ambiental compensatória pelo Banco Mundial, devido aos danos causados no cerrado brasileiro. Em outubro de 1998, os decretos 39.953/1998 e 39.954/1998 criaram, respectivamente, as Unidades de Conservação dos parques Verde Grande e Lagoa do Cajueiro. E, em 2000, começou o processo de desapropriação das fazendas que comporiam o parque.

O que não se leva em conta, em todo o processo compensatório, é a existência de comunidades que há séculos viviam naquela terra e que foram expulsas para a construção dos parques. Nessa época, as comunidades tradicionais ainda não se reconheciam como tal, mas a violação de direitos serviu de impulso para lutar por eles. “Não existe comunidade tradicional sem território. A Constituição diz que é dever do Estado proteger as manifestações culturais porque elas contribuíram para o que o povo brasileiro é hoje, mas o Estado não cumpre essa obrigação”, afirma André Souza, assessor jurídico do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, entidade de apoio aos direitos dos povos e comunidades tradicionais.

No Quilombo da Lapinha, cujos moradores se identificam como “vazanteiros quilombolas”, o processo de autorreconhecimento se deu em 2005, certificado pela Fundação Palmares. No ano seguinte, a comunidade iniciou sua primeira retomada, recuperando área referente à Fazenda Casa Grande, de 4.000 hectares, propriedade da empresa Farevasp. Em seu laudo antropológico, a comunidade se identifica com um território equivalente a 7.720 hectares, que também corresponde a parte da área do Parque Lagoa do Cajueiro. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) dedica-se atualmente à elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), previsto para o final deste ano, após o qual será feita a identificação definitiva do território. A assessoria do Incra não sabe informar quanto tempo levará até a titulação definitiva do território do Quilombo da Lapinha.

Em Pau Preto, o reconhecimento como “vazanteiros” não garantiu uma fundamentação jurídica tão consistente como a dos quilombolas. A comunidade vazanteira depende da assessoria jurídica de organizações e pessoas que buscam um caminho para a regulação de seu território. Com esse apoio, realizou sua primeira ocupação em julho de 2011, retomando a área da Fazenda Catelda, propriedade da Agropecuária Catelda S.A. A partir daí, iniciaram-se reuniões de negociação entre os vazanteiros e o Instituto Estadual de Florestas (IEF), órgão responsável pelo Parque Verde Grande.

Essas negociações já se estendem por oito anos. Para que a comunidade retorne legalmente ao seu território de origem, é necessário um processo de desafetação da área do Parque Verde Grande, mas o órgão responsável pela ação, o IEF, negou-se oficialmente a realizá-la em parecer técnico divulgado em abril deste ano. Procurado pela reportagem, o IEF não quis se pronunciar sobre o caso.

A comunidade parte agora para a pressão política, com o apoio da Articulação Rosalino de Povos e Comunidades de Tradicionais. “Eu costumo dizer que aqui nesta região, sobretudo na comunidade de Pau Preto, é o povo da resistência, da paciência e da esperança renovada”, diz Maria Zilah de Mattos, que há 18 anos acompanha os vazanteiros pela Comissão Pastoral da Terra. “Eles falam: ‘Qual vai ser o futuro dos nossos filhos amanhã se a gente não conseguir garantir o peixe e o território?’. É um povo que sempre viveu sem nenhuma visibilidade e teve sempre uma luta para permanecer aqui.”

Água e terra são as principais reivindicações das comunidades tradicionais, que na vida coletiva manejam os poucos recursos naturais de que dispõem. “Vocês tão vendo essa beleza aqui nessa margem do rio? Pois é, se ainda existe isso aqui agradece a Deus e a nós que estamos aqui. Porque, se os empresários estivessem aqui, até o barulho do rio já estaria desmatado”, aponta Manuel Saruê. “Tem hora que a gente fica até revoltado com esses tipos de lei que eles fazem, que é contra o ser humano sobreviver naquela área.” A conservação do meio ambiente, aliada ao acesso ao território pelas comunidades tradicionais, é garantida pela Constituição Federal e pela Convenção da Biodiversidade, da qual o Brasil é signatário. Apesar disso, a concepção conservacionista de órgãos estaduais em Minas Gerais reforça a contradição entre homem e terra. “Esta é a grande contradição e a revolta das comunidades. Se foram elas que preservaram, por que agora têm que sair? Por que não há uma compatibilidade entre a comunidade e seu modo de vida com a preservação ambiental?”, diz André Souza.

Para os vazanteiros, o São Francisco é mais do que suas correntezas que passam: chega a ser algo vivo. Até possui sua entidade protetora, o “cumpadre” do rio (como é chamado), descrito como um homem negro de chapéu que mora dentro do São Francisco e comanda suas águas, decidindo quem delas recebe peixes e cuidados. As crianças tremem de medo tão logo ouvem falar do “cumpadre”, mas os adultos já se acostumaram com ele. “Quando a gente era criança e ficava fazendo muita farra no rio, minha vó falava: ‘Ei, pode parar. O rio tem dono!’”, lembra Dinda. “E tem umas coisas: você não entra de sandália dentro do rio. Tem que pedir licença para entrar. Se estiver fumando, você tira um pouquinho do fumo e joga no rio, para dar para o ‘cumpadre’. É uma ciência que a gente acostumou a ter, de respeito com o rio.”

“Sem água nós não vivemos”, sabem as crianças vazanteiras. Sem terra, tampouco. Correndo e brincando nas águas do rio São Francisco, as crianças não sabem, mas encarnam silenciosa dúvida para quem as observa: será que elas, quando adultas, ainda levarão os saberes transmitidos no modo de tirar vida da água, contando lendas sobre o “cumpadre”, firmando os pés em seu território, se reconhecendo como seus pais se reconheciam? Será que – como o rio São Francisco – irão resistir?

Atualização (30/09): Foi corrigida a grafia do nome do pesquisador e integrante da Articulação São Francisco Vivo.

Essa matéria é resultado do concurso de microbolsas para reportagens investigativas sobre Crianças e Água promovido pelo projeto Prioridade Absoluta do Instituto Alana em parceria com a Agência Pública.

Conselho aprova dribles ambientais do governo para regularizar obras da Sabesp

Documento da Secretaria do Meio Ambiente abre brechas para que estudos sobre impactos ambientais sejam simplificados

Eduardo Saraiva/A2img - 04.09.2015 Geraldo Alckmin vistoria obra da Sabesp: para MP, dribles ambientais podem ser criminalizados
Eduardo Saraiva/A2img – 04.09.2015 Geraldo Alckmin vistoria obra da Sabesp: para MP, dribles ambientais podem ser criminalizados

Por David Shalom - iG

O Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo (Consema) aprovou, nesta quarta-feira (30), um documento que abre brechas para a liberação de obras de contenção da crise hídrica sem a realização dos devidos estudos de impacto ambiental.

Aprovada por 24 votos a 8, a Deliberação Normativa do Consema foi apresentada sob a justificativa de que o governo precisaria de “ritos especiais” para agilizar a regularização de suas obras, inclusive daquelas já iniciadas – ou finalizadas – vistas como irregulares pelo Ministério Público Estadual.

A ideia do governo Geraldo Alckmin é que o texto ajude a agilizar a regularização de cinco obras – inclusive de duas que já estão prontas –, entre elas a transposição de água da Represa Billings para o Sistema Alto Tietê, classificada como irregular.

“Com a minuta aprovada, o tempo de análise dos processos poderá ser menor. Vale lembrar que o texto trata exclusivamente do tempo de análise, não alterando nenhum procedimento”, afirma a Secretaria do Meio Ambiente paulista em nota enviada ao iG.

Mas, na prática, a história é outra. Segundo ambientalistas ouvidos pela reportagem, alguns deles conselheiros do grupo, o documento passará a legitimar a aprovação de estudos ambientais simplificados, tidos como praticamente nulos para a conservação, para todas as obras da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), já que documentos mais bem elaborados levam meses para ficar prontos.

Além disso, mesmo para os estudos mais elaborados, os prazos foram todos reduzidos, inclusive no que diz respeito à divulgação e consulta à população e especialistas previstas na Legislação brasileira. Por exemplo, se atualmente qualquer pessoa pode se manifestar contra obras consideradas de alto poder de degradação ambiental em até 45 dias, esse prazo cai para 15 com a nova regra.

“Perdemos feio para os interesses governamentais e de sanar o que o governo deixou de fazer durante anos e anos em que foi avisado da gravidade da crise”, avalia o ambientalista Mauro Frederico Wilken, um dos 36 conselheiros titulares do Consema, a última instância em que a sociedade civil pode decidir sobre o licenciamento ambiental de uma obra.

“Na reunião passada, eu lembrei que, ainda em 2009, o governo Alckmin contratou 200 técnicos para fazer estudos que constataram que a crise hídrica atual viria em 2015. Mas ninguém tomou providência e, agora, nove anos depois, querem mexer no licenciamento. Fomos atropelados hoje.”

Amplamente criticado pela Aliança pela Água, grupo que reúne mais de 60 ONGs ligadas ao meio ambiente, como o Greenpeace e a WWF-Brasil, o documento não é malvisto apenas entre especialistas. Ainda no mês passado, o Ministério Público Estadual chegou a enviar ofício ao Consema recomendando que o pedido de ritos especiais não fosse aprovado.

De acordo com o texto do promotor de Justiça Ricardo Manuel Castro, os conselheiros que aderissem ao pedido da gestão tucana poderiam, em tese, ser responsabilizados por crime ambiental e de prevaricação (quando o funcionário público deixa de cumprir o seu dever), além de improbidade administrativa. As penas podem chegar a até três anos de prisão e multa.

Segundo fontes consultadas pelo iG, a ameaça de processo foi o que levou a votação a não ser realizada de forma nominal – assim, os favoráveis ao texto não seriam publicamente conhecidos, ao menos de imediato.

A reportagem, no entanto, apurou que os oito votos contrários à Deliberação Normativa vieram da Procuradoria-Geral de Justiça (chefe do Ministério Público); da Universidade de Campinas (Unicamp); do Sindicato dos Trabalhadores de Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado (Sintaema, representante dos funcionários da Sabesp); e de cinco ambientalistas – Mauro Frederico Wilken, Márcio Piedade Vieira, DimitriAuad, João Carlos Cunha e Ricardo Anderaus.

Presidido pela secretaria do Meio Ambiente paulista, Patrícia FagaIglecias Lemos, o Consema tem entre seus integrantes titulares representantes de 18 pastas subordinadas ao governo Alckmin, entre elas a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), a Coordenadoria de Fiscalização Ambiental, a Secretaria de Agricultura e a Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos.

A outra metade do grupo, que representa a sociedade civil, é composta por 12 entidades de classe, associações e universidades. No entanto, entre elas estão órgãos como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), com interesse direto nas obras, e uma funcionária da Sabesp. Órgãos como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e mesmo a Universidade de São Paulo (USP), subordinada ao governo, foram favoráveis à aprovação do texto.

“Mesmo a metade dos conselheiros que não é do governo tem ligação com ele. É um jogo de cartas marcadas”, aponta Maria Cecília Wey de Brito, da ONG Aliança pela Água. “O trator veio muito forte. Esse atropelo do governo prejudicará totalmente os avanços que tivemos nos últimos tempos. E, agora que o Consema votou, não dá mais para voltar atrás. Tudo será como o governo quiser. Só nos resta fiscalizar”, resume Wilken.

Sabesp investiu R$ 28,9 mi para transposição de rio que não tem água

Rio que era a salvação está seco após menos de 50 dias da inauguração de obra de transposição que consumiu R$ 28,9 milhões 

Governador Geraldo Alckmin (PSDB) inaugurou obra em 29 de junho; após 50 dias, bombas ainda estão desligadas

Governador Geraldo Alckmin (PSDB) inaugurou obra em 29 de junho; após 50 dias, bombas ainda estão desligadas

Quase 50 dias após a inauguração, o rio onde a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) investiu R$ 28,9 milhões em uma transposição para “garantir o abastecimento hídrico durante o período seco” e socorrer o Sistema Alto Tietê está sem água.

O objetivo da obra emergencial era levar 1 mil litros por segundo do Guaió para a Represa Taiaçupeba, em Suzano, onde fica a estação de tratamento, “beneficiando diretamente mais de 300 mil moradores” da Grande São Paulo. Mas, por causa da estiagem no local, a operação não foi iniciada.

“Não há água para retirar do rio”, admitiu o superintendente de Produção da Sabesp, Marco Antônio Lopez Barros, durante apresentação sobre as obras emergenciais da empresa para o Comitê da Bacia do Alto Tietê, na quinta-feira. Segundo ele, a obra do Rio Guaió ainda está em fase de “pré-operação”.

No dia seguinte, a reportagem do Estado visitou as instalações e constatou que as bombas que foram ligadas pessoalmente pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) em um evento no dia 29 de junho estavam desligadas. Na ocasião, o tucano afirmou que estava “entregando a primeira das três obras importantíssimas para garantir o abastecimento hídrico durante o período seco”, que vai de abril a setembro.

“Já era sabido que no período de estiagem não teria essa vazão que eles anunciaram. Com essa seca no Alto Tietê, então, o Guaió não tem nem metade dessa água. Isso parece mais uma ação de marketing do que uma obra para resolver o problema. Venderam para a população que iam bombear continuamente mil litros por segundo, mas não estão bombeando nada”, afirma o engenheiro José Roberto Kachel, ex-funcionário da Sabesp e integrante do comitê do Alto Tietê.

Rio Guaió

O Guaió é um pequeno rio que nasce em Mauá e deságua no Rio Tietê, após percorrer 20 quilômetros. A Sabesp construiu 9 quilômetros de adutoras para levar água dele até o Ribeirão dos Moraes, um córrego que termina no Rio Taiaçupeba-Mirim, afluente da Represa Taiaçupeba, onde está a estação de tratamento do Sistema Alto Tietê. Hoje, o manancial que abastece 4,5 milhões de pessoas na porção leste da Grande São Paulo é o que está mais próximo do colapso, com apenas 15,9% da capacidade.

À época da inauguração, a Sabesp afirmou que a obra era “essencial para garantir o abastecimento da população no período de estiagem, que vai até o fim de setembro” e “a entrada de mais um rio para alimentar as represas (do manancial) vai ampliar o nível de todo o sistema”. Agora, a Sabesp afirma que as obras emergenciais “foram concebidas para captar água onde estiver chovendo e armazenar onde for possível”.

Sinal vermelho: Brasil pode demorar 65 anos para reduzir desperdício de água

“A grande questão é que hoje não há uma evolução no indicador de redução de desperdício de água. A evolução é muito lenta, e por isso a nossa projeção é de que demore tanto tempo para se reduzir o índice de desperdício”, diz o consultor do Instituto Trata Brasil Pedro Scazufca

por IHU on line

O índice de desperdício de água potável no Brasil é de 37% durante o processo de distribuição, valor que equivale a seis Sistemas da Cantareira, segundo pesquisa realizada recentemente pelo Instituto Trata Brasil. A perda de água causada por conta de vazamentos, pelo uso de hidrômetros adulterados, por ligações clandestinas e pela manutenção inadequada das redes pode ser resumida a dois fatores: “falta de gestão e falta de manutenção”, afirma Pedro Scazufca na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.

“Onde há perdas físicas, é necessário fazer uma troca adequada das redes, além da manutenção, verificando se existem vazamentos. Em relação às perdas comerciais, é necessário fazer uma troca adequada dos hidrômetros, substituí-los constantemente, ter um parque de hidrômetros com uma idade de no máximo cinco anos, para que haja uma medição correta de quanta água está chegando nas casas das pessoas”, explica.

De acordo com Scazufca, apesar de os dados do desperdício de água serem “muito elevados”, a redução do desperdício de 37% para 15% deve ser atingida somente em 2080. “Basicamente este é o motivo: estamos evoluindo de maneira muito lenta, embora tenhamos algumas cidades que fogem à regra, a exemplo de Limeira e Campinas, que têm índices menores de desperdício. Em geral, as cidades não estão evoluindo. Em aproximadamente dez capitais brasileiras há perdas maiores do que 50%”. Entre as cidades em que há maior desperdício, destacam-se as da região Norte e Nordeste. Em Manaus, por exemplo, os indicadores registram 75% de desperdício.

Pedro Scazufca é mestre em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo – USP e bacharel em Economia pela Faculdade de Economia e Administração da USP. É um dos organizadores do livro A Economia do Saneamento no Brasil. Atualmente também atua como consultor do Instituto Trata Brasil.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, o desperdício de água no país equivale a seis Cantareiras. Qual é o significado desse valor?

Pedro Scazufca - Os dados do desperdício de água são muito elevados; a média de desperdício no Brasil é de 37% e já esperávamos realmente um resultado ruim, um resultado que mostra o desperdício em termos de perdas físicas, causado basicamente por vazamentos, mas também perdas comerciais, que são os famosos “gatos”, ou seja, há muitas ligações clandestinas e hidrômetros adulterados.

Em relação às perdas físicas, basicamente elas dependem de uma manutenção inadequada da rede, e as redes são muito antigas. Então, por conta de essas redes serem antigas e não terem a manutenção adequada, ocorrem osvazamentos. Em relação às perdas comerciais, esse é um problema que existe por conta do comportamento inadequado dos cidadãos, infelizmente, que fazem ligações clandestinas ou fazem adulterações no hidrômetro para que ele meça um valor menor de água do que o que está sendo consumido.

IHU On-Line – Como é possível resolver esses problemas que geram desperdício?

Pedro Scazufca - Na verdade existe um problema de gestão e outro de falta de manutenção. Onde há perdas físicas, é necessário fazer uma troca adequada das redes, além da manutenção, verificando se existem vazamentos. Em relação às perdas comerciais, é necessário fazer uma troca adequada dos hidrômetros, substituí-los constantemente, ter um parque de hidrômetros com uma idade de no máximo cinco anos, para que haja uma medição correta de quanta água está chegando na casa das pessoas.

IHU On-Line – A estimativa do Trata Brasil é de que o país alcance um nível de desperdício de 15% em 2080. Por que a expectativa é de que isso ocorra somente num prazo tão distante?

Pedro Scazufca - A grande questão é que hoje não há uma evolução no indicador de redução de desperdício de água. A evolução é muito lenta, e por isso a nossa projeção é de que demore tanto tempo para se reduzir o índice de desperdício. Basicamente este é o motivo: estamos evoluindo de maneira muito lenta, embora tenhamos algumas cidades que fogem à regra, a exemplo de Limeira e Campinas, que têm índices menores de desperdício. Em geral, as cidades não estão evoluindo. Em aproximadamente dez capitais brasileiras, há perdas maiores do que 50%.

IHU On-Line – Em quais regiões há maiores evidências de desperdício de água?

Pedro Scazufca – Pelas informações que foram verificadas, a região Norte é onde existem maiores perdas de água, seguida da região Nordeste.

IHU On-Line – Segundo o Instituto, o desperdício anual de água equivale a R$ 8 bilhões que deixam de retornar ao saneamento básico. Que investimentos poderiam ser feitos com esse valor?

Pedro Scazufca – Essa estimativa de R$ 8 bilhões de reais é o total perdido, mas, como você falou, a meta é diminuir o índice de desperdício de água de 37% para chegar a aproximadamente 15%. Assim, não é possível reverter tudo isso, mas se deste valor de R$ 8 bilhões conseguíssemos reverter uns R$ 5 bilhões, estimamos que será necessário, por ano, investimentos da ordem de R$ 15 a 16 bilhões para que seja universalizado o saneamento até o ano de 2033, que é a meta do Plano Nacional de Saneamento.

IHU On-Line – Que medidas poderiam ajudar a reduzir o desperdício de água na rede de distribuição? Trata-se de investimento em tecnologia, melhoramento da gestão?

Pedro Scazufca – A gestão do Saneamento é feita pelas prestadoras de serviço e por cada município. Essas prestadoras podem ser companhias estaduais, que atendem hoje cerca de 70% da população; há também companhias municipais, que atendem cerca de 20% das operações. Então, por exemplo, em São Paulo, a Sabesp é uma companhia estadual que atende 365 municípios, mas em Campinas, por outro lado, o serviço é feito por uma empresa municipal. Há também empresas privadas, que atendem cerca de 10% da população; por exemplo, em São Paulo, há o caso de Limeira, onde é uma empresa privada que faz a prestação de serviço. Assim, são essas prestadoras de serviço que têm a obrigação de fazer a gestão e de melhorar essa gestão.

IHU On-Line – Há um comparativo no sentido de verificar se os locais em que há maior desperdício de água são atendidos por empresas estatais ou privadas?

Pedro Scazufca – Na verdade, os resultados aos quais chegamos mostram que temos tanto empresas privadas quanto empresas municipais ou estaduais onde há casos de sucesso. Dessa forma, não dá para atribuir a responsabilidade somente ao setor privado ou somente ao setor público, por exemplo. Agora, o que sabemos e o que acompanhamos é que há, sim, casos de municípios que iniciaram uma gestão privada e tiveram um sucesso de reduzir as perdas; isso realmente observamos.

Crise hídrica: a solução está no estudo das bacias hidrográficas.

Com exceção dos habitantes do Semiárido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que água era um bem abundante, livre e sem valor econômico”, afirma em entrevista, o engenheiro florestal Osvaldo Ferreira Valente 

Represa de Paraibuna seca em novembro do ano passado: problema longe do fim Foto: Custódio Coimbra/03.11.2014
Represa de Paraibuna seca em novembro do ano passado: problema longe do fim Foto: Custódio Coimbra/03.11.2014

 Por Patricia Fachin – IHU Unisinos

Há 48 anos, desde que criou a disciplina de hidrologia e manejo de bacias hidrográficas, Osvaldo Ferreira Valente afirma que convive com “a frustração de ver a produção de água ainda ser tratada com alta dose de empirismo e de soluções do tipo ‘salvadoras da pátria’”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ao ser questionado sobre como resolver a crise hídrica que já atinge algumas cidades brasileiras, o engenheiro florestal é categórico ao sugerir que seja feito um “estudo hidrológico do comportamento das bacias formadoras do Sistema, incluindo informações sobre geologia e solos e procedimentos adotados no uso da terra”.

Contudo, comenta, ainda há quem repita “aquele conselho tão recorrente e perigoso para quem pergunta o que fazer para salvar uma nascente e recebe a resposta simplista: cerque-a e plante árvores”. “Se isso fosse verdade”, pontua, “seria facílimo e barato resolver os problemas de abastecimento de água para as nossas variadas necessidades”.

De acordo com Valente, depois de um estudo hidrológico para saber como se dá o comportamento das bacias hidrográficas, é preciso “considerar os aspectos socioeconômicos dos ecossistemas familiares, principalmente dos que ocupam áreas rurais. Depois disso, fixar metas de produção de água para os próximos cinco anos e, a partir delas, dimensionar as estruturas de recarga artificial de aquíferos”.

Osvaldo Ferreira Valente explica ainda que as “crises de água existem porque ainda não respeitamos os conceitos de hidrologia referentes às pequenas bacias, onde tudo começa, e não aplicamos os princípios e as tecnologias necessárias para os seus manejos”. Segundo ele, é preciso explicitar que “a bacia hidrográfica é a responsável por receber e processar os volumes de água recebidos das chuvas. E que é dela, portanto, a responsabilidade de manter os cursos d’água, seja ele um córrego, riacho, ribeirão ou um grande rio. Essa falta pode ser a explicação para a concentração de atenções nas calhas dos cursos d’água em si, ou no máximo em suas áreas ciliares, esquecendo que eles são produtos dos comportamentos das bacias que os formam. Por isso, eu sempre estou cobrando que as pessoas deixem de mergulhar nos rios e passem a ‘mergulhar’ nas suas bacias”, salienta.

Segundo o engenheiro, apesar das iniciativas de reflorestar o Sistema Cantareira, “dificilmente conseguiríamos aumentar substancialmente a cobertura florestal nas bacias” que formam o Sistema. “Talvez, com o novo Código Florestal, possamos, em alguns anos, passar a cobertura atual de 21,5% para 28%. Tal aumento seria pouco relevante para a elevação da produtividade de água. Há até o risco de, num horizonte de 30 anos, o aumento de a cobertura florestal provocar uma diminuição da produtividade”, explica.

Osvaldo Ferreira Valente é engenheiro florestal, especialista em hidrologia e manejo de pequenas bacias hidrográficas. É professor titular, aposentado, da Universidade Federal de Viçosa – UFV e autor de dois livros sobre o assunto, intitulados Conservação de nascentes – Produção de água em pequenas bacias hidrográficas e Das chuvas às torneiras – A água nossa de cada dia. Depois de aposentado, tem dedicado o seu tempo em consultorias de projetos de manejo de bacias, principalmente na capacitação e treinamento de equipes envolvidas, e na divulgação científica de conhecimentos relacionados com a produção de água.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as razões das crises de abastecimento de água que se vê no Brasil nos dias de hoje?

Osvaldo Ferreira Valente – Com exceção dos habitantes do Semiárido, os brasileiros foram criados sob o conceito de que água era um bem abundante, livre e sem valor econômico. A Lei 9.433, de janeiro de 1997, a Lei das Águas, procurou mudar esse sentimento, dizendo, em seu primeiro artigo:

Item II – a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico.

Item V – a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos.

Mas talvez tenha faltado dizer, mais explicitamente, que a bacia hidrográfica é a responsável por receber e processar os volumes de água recebidos das chuvas. E que é dela, portanto, a responsabilidade de manter os cursos d’água, seja ele um córrego, riacho, ribeirão ou um grande rio. Essa falta pode ser a explicação para a concentração de atenções nas calhas dos cursos d’água em si, ou no máximo em suas áreas ciliares, esquecendo que eles são produtos dos comportamentos das bacias que os formam. Por isso, eu sempre estou cobrando que as pessoas deixem de mergulhar nos rios e passem a “mergulhar” nas suas bacias.

É claro que saneamento é importante, com combate contínuo à poluição das águas. É claro que a mata ciliar é importante, como proteção à biodiversidade e como barreira de acesso direto aos leitos. Mas dois aspectos devem ficar bem claros: primeiro, que a poluição só poderá ser um problema se existir água correndo no leito; segundo, que as áreas ciliares não podem ser responsabilizadas pelas quantidades de água produzidas pelas bacias, pois elas representam no máximo 10% das superfícies das mesmas.

Em resumo, as crises de água existem porque ainda não respeitamos os conceitos de hidrologia referentes às pequenas bacias, onde tudo começa, e não aplicamos os princípios e as tecnologias necessárias para os seus manejos.

IHU On-Line - Que elementos não estão sendo discutidos com a devida prioridade e cuidado quando se trata das crises de abastecimento de água?

Osvaldo Ferreira Valente – Parte da resposta já foi dada na pergunta anterior. Mas vale a pena acrescentar que no primeiro artigo da Lei 9.433, o Item I afirma ser a água um bem de domínio público. O que quer dizer isso? Que a água que nasce e corre pela propriedade rural de alguém não lhe pertence e que quaisquer coletas feitas devem estar previamente autorizadas pela Agência Nacional de Águas – ANA, ou por seus representantes estaduais. É o princípio da outorga. Ora, se o poder público chamou para si a propriedade do recurso, inclusive cobrando por isso, quando o consumo não for considerado insignificante, cabe a ele cuidar do mesmo. Pelo menos oferecendo suporte técnico e financeiro aos donos das propriedades onde nascem e correm os pequenos cursos d’água.

Os comitês e as agências de bacias, também criadas pela Lei 9.433, ainda estão descobrindo a melhor maneira de atuarem. Uma dificuldade é que elas têm de operar no sistema de licitação e aí o processo fica muito frio para a lida com as áreas rurais. Ganham empresas que não têm nenhuma ligação com o meio social e econômico e não conseguem estabelecer a empatia necessária com as comunidades. Acabam o trabalho, desmancham os acampamentos e vão embora. Em pouco tempo todos os trabalhos desenvolvidos estarão perdidos. O sucesso só vai ser alcançado quando as atividades forem desenvolvidas sob a metodologia da extensão rural. Outro fato preocupante é a concentração de recursos arrecadados no saneamento, campo dominado por empresas de engenharia que estão muito mais estruturadas para fazer pressão junto às agências.

Os comitês precisam, também, buscar mais assessoria especializada em produção de água para estabelecerem as prioridades de aplicação dos recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água. Assessoria em hidrologia aplicada às pequenas bacias, em geologia e solos, em tecnologias de manejo de ecossistemas hidrológicos e em conscientização e capacitação de ecossistemas familiares que interagem com os hidrológicos. A hidrologia aplicada a pequenas bacias (hidrologia de produção de água) tem especificidades que não são contempladas pela hidrologia comumente ensinada na maioria dos nossos cursos de engenharia, que se concentra na análise de vazões de cursos d’água.

IHU On-Line - O senhor sinaliza que, ao contrário do que muitos especialistas estão afirmando, o reflorestamento não é a única solução para aumentar a produção de água de mananciais de abastecimento. Qual é a importância do reflorestamento nesse processo e quais são as alternativas?

Osvaldo Ferreira Valente – É evidente a importância da floresta natural na conservação ambiental, na manutenção da biodiversidade e no oferecimento de variados serviços ambientais. Mas tudo isso não pode ser confundido com um comportamento sempre positivo na produção de quantidade de água. Aquelas imagens de nascentes e córregos brotando ou correndo límpidos pelo interior de florestas estão perfeitamente de acordo com qualidade de água, mas nem sempre com quantidade produzida.

Em artigo recente, de minha autoria, publicado pelo Jornal da Ciência – SBPC e republicado pelo Portal EcoDebate em 09/07/2015, sob o título de “Florestas e produção de água”, tive a oportunidade de discutir o assunto com base em duas teses de doutorado e outra de mestrado, defendidas na USP. São dados científicos, portanto, mostrando que as produtividades de água de bacias cobertas por florestas naturais, estudadas nas teses, variaram de 15,43 L/Km2.s a 2,4 L/Km2.s, nos meses de agosto, que são meses centrais dos períodos de estiagens nas regiões estudadas. Fiz questão de usar as teses para não deixar dúvidas sobre a confiabilidade das informações. As bacias estudadas estavam cobertas com florestas secundárias e com mais de 30 anos. A bacia que produziu 2,4 L/Km2.s está com vazão superficial zerada em agosto, nos últimos três anos. Há informações um pouco empíricas e, portanto, servindo apenas como notícia, de que ela produzia 6,28 L/Km2.s, na década de 1960, quando a bacia estava começando o processo de regeneração natural.

Há muitos trabalhos científicos mostrando que florestas naturais possibilitam velocidades de infiltração que podem chegar a mais de 60 mm/h, tendo, assim, capacidade de evitar enxurradas na maioria das chuvas intensas por ela recebidas. Por que, então, a baixa produtividade de 2,4 L/Km2.s, ou até de zero?

Tudo vai depender de disponibilidades de água no solo e do balanço de energia do meio. Numa área degradada, ou de culturas agrícolas que explorem pequenas profundidades de solo, poderá haver transferência de muita energia para a floresta que, ao explorar camadas mais profundas do solo, poderá provocar altas taxas de evapotranspiração, dificultando o armazenamento de água nos aquíferos subterrâneos. É como se a área florestal se comportasse como uma ilha consumidora da energia não utilizada pelas áreas vizinhas. O assunto é, portanto, muito mais complexo do que parece à primeira vista. A localização e a implantação de florestas para produção de água devem ser precedidas de estudos sobre balanço de energia na região.

Se os reflorestamentos não se mostrarem confiáveis para aumentar a produção de água, poderemos adotar tecnologias de abastecimento artificial de aquíferos, tais como os terraços de bases estreitas nas encostas, as caixas de captação de enxurradas nas áreas mais torrenciais, ou ao longo de estradas, e as barraginhas, quando em áreas mais planas ou ligeiramente onduladas. Também práticas vegetativas, como os cultivos em contorno, a rotação de pastagens e os plantios diretos. Mas todas essas tecnologias precisam ser dimensionadas e localizadas sob os princípios hidrológicos aplicados a pequenas bacias hidrográficas.

IHU On-Line - Para além do reflorestamento, o que seria uma alternativa para revitalizar o Sistema Cantareira?

Osvaldo Ferreira Valente – No artigo mencionado na resposta anterior há referências a propostas que correm na mídia e que pretendem resolver a questão com reflorestamentos. Mostrei, lá, que dificilmente conseguiríamos aumentar substancialmente a cobertura florestal nas bacias que formam o Sistema Cantareira. Talvez, com o novo Código Florestal, possamos, em alguns anos, passar a cobertura atual de 21,5% para 28%. Tal aumento seria pouco relevante para a elevação da produtividade de água. Há até o risco de, num horizonte de 30 anos, o aumento de a cobertura florestal provocar uma diminuição da produtividade. Este perigo foi mostrado em tese recente de doutorado na USP.

Estudo hidrológico

O que fazer, então? Primeiro, um estudo hidrológico do comportamento das bacias formadoras do Sistema, incluindo informações sobre geologia e solos e procedimentos adotados no uso da terra. Segundo, considerar os aspectos socioeconômicos dos ecossistemas familiares, principalmente dos que ocupam áreas rurais. Depois disso, fixar metas de produção de água para os próximos cinco anos e, a partir delas, dimensionar as estruturas de recarga artificial de aquíferos, já mencionadas na resposta anterior. Programar e desenvolver, também, programas de melhorias de procedimentos de cultivo da terra. Tais programas devem ser implantados com metodologias de extensão rural, ou seja, por instituições ou organizações que detenham tal expertise e não por empresas de engenharia especializadas em execução de obras de infraestrutura.

Mas não é só o meio rural que deve ser responsável pelo abastecimento dos aquíferos. As áreas urbanas também podem colaborar, facilitando infiltração. O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, grande estudioso das inundações urbanas, tem publicado artigos e livro com propostas para aumentar a infiltração de água nos espaços das cidades. Recentemente ele teve oportunidade de expor suas ideias no congresso da SBPC, em São Carlos-SP (com resenha publicada pelo EcoDebate, em 17/07/2015). Ele fala em sarjetas drenantes, em calçadas com áreas verdes, em adoção de pisos permeáveis, etc. Muitas cidades brasileiras já obrigam a construção de cisternas de infiltração junto às construções.

Produtividade da água

É fundamental, para sucesso da operação, que deixemos de lado aquela ideia de que basta cercar as áreas de preservação permanente em torno das nascentes e dos cursos d’água e plantar árvores, para o problema estar resolvido. Em algumas situações, a mata ciliar que passar a se desenvolver poderá até provocar diminuição de vazões. Isso se nada for feito na bacia para compensar o efeito de uma área que pode ser importante em questões ambientais, mas não garantidora de aumento de produtividade de água. Os volumes infiltrados nessas áreas são rapidamente drenados pelos cursos d’água; não ficam armazenados nos aquíferos até os períodos de estiagens. Por outro lado, nos meses secos, na maioria das regiões brasileiras, já há energia disponível no meio para provocar aumento da taxa de transpiração, lembrando que muitas dessas áreas ficam úmidas o tempo todo, por serem regiões de passagem de água dos aquíferos para as nascentes e cursos d’água. Podem garantir, portanto, suprimento contínuo de água para o fenômeno da transpiração.

Sei que esta minha análise poderá ser contestada por muitos e eu estou aberto ao contraditório, desde que ele venha consubstanciado por trabalhos científicos, com valores de vazões medidas antes e ao longo do desenvolvimento da mata ciliar.

IHU On-Line - Em que consiste sua proposta de que, dada a demanda para resolver a crise hídrica no curto prazo, deve-se armazenar água em represas e em reservatórios urbanos? Quais as vantagens desse procedimento?

Osvaldo Ferreira Valente – Vamos começar analisando, por exemplo, o comportamento provável das bacias que compõem o Sistema Cantareira. Os 2.280 km2 do Sistema recebem das chuvas, em anos hidrológicos normais, em torno de três bilhões de metros cúbicos de água. A outorga para o abastecimento das áreas metropolitanas é de 36 m3/s. Isso representa o consumo de algo em torno de 1,2 bilhão de metros cúbicos por ano. Se for feito um bom trabalho de manejo das bacias envolvidas, será possível colocar 17% dos volumes de chuvas nos aquíferos, totalizando 0,5 bilhão de metros cúbicos, o que representa apenas 42% do consumo demandado. Portanto, a captação a fio d’água não daria conta do recado.

Quais são as alternativas para completar a demanda? Investir em represas com capacidades de acumulação suficientes para completar as vazões necessárias; investir em armazenamentos de água de chuva em reservatórios domésticos e industriais, visando aliviar o abastecimento das concessionárias.

O problema maior do Cantareira é estar localizado em cabeceiras de rios, que, hidrologicamente, não são capazes de produzir vazões compatíveis com grandes demandas, como a da região metropolitana de São Paulo. Tenho pouca simpatia pela reservação superficial, mas tenho que aceitá-la para São Paulo. Em inúmeras outras situações, espalhadas pelo território brasileiro, um bom trabalho de manejo de bacias hidrográficas será capaz de produzir o necessário para abastecimento das populações, sem reservação superficial.

IHU On-Line - O senhor mencionou em artigo recente a necessidade de investir em tecnologias para aumentar a rugosidade das superfícies das bacias hidrográficas, o que dificultaria a formação das enxurradas e favoreceria a infiltração de água no solo. Que tecnologias são essas? Há exemplos de locais em que essas tecnologias foram aplicadas? O Brasil já dispõe delas?

Osvaldo Ferreira Valente – As tecnologias já foram mencionadas nas respostas anteriores. Elas são capazes de diminuir a velocidade de escoamento superficial, dando tempo para que boa parte dos volumes recebidos pelas chuvas possa infiltrar no solo, primeira condição de ter aquíferos bem abastecidos. Vale lembrar que a curva de quantidade de água infiltrada eleva-se com o tempo.

Entre os anos 1999 e 2005, tivemos a oportunidade de testar várias dessas tecnologias na região de Viçosa-MG, com financiamento da concessionária de abastecimento da cidade (Serviço Autônomo de Água e Esgoto, SAAE-Viçosa), tendo conseguido, em alguns casos, até dobrar vazões de pequenas bacias em curto espaço de tempo. Esses estudos foram inclusive premiados pela Agência Nacional de Águas – ANA e estão disponíveis em um relatório que eu posso disponibilizar para quem tiver interesse.

A ANA também já vem financiando a aplicação dessas tecnologias em algumas bacias, através do seu programa chamado “Produtor de Água” (mais informações no site da Agência). Na região de Viçosa, a ANA já está financiando o segundo projeto, com objetivo de criar condições para o Pagamento por Serviços Ambientais – PSA.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Osvaldo Ferreira Valente – O manejo de bacias hidrográficas, ensinado em várias instituições do país, está aí para nos mostrar como a bacia deve ser organizada para receber os volumes de chuvas anuais e processá-los adequadamente, evitando cheias e inundações e armazenando água nos aquíferos para as demandas dos períodos de estiagens.

Tenho a satisfação de ter criado a primeira disciplina de “hidrologia e manejo de bacias hidrográficas” no país em 1967, efetivamente lecionada para alunos de engenharia florestal da então Universidade Rural do Estado de Minas Gerais, hoje Universidade Federal de Viçosa. Por outro lado, depois de 48 anos dedicados ao assunto, convivo com a frustração de ver a produção de água ainda ser tratada com alta dose de empirismo e de soluções do tipo “salvadoras da pátria”. Ainda sou obrigado a ouvir aquele conselho tão recorrente e perigoso para quem pergunta o que fazer para salvar uma nascente e recebe a resposta simplista: cerque-a e plante árvores. Se isso fosse verdade, seria facílimo e barato resolver os problemas de abastecimento de água para as nossas variadas necessidades.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que o Tietê ainda não foi despoluído?

 O despejo de esgoto sem tratamento é só uma parte da complexa resposta a essa pergunta. Outro problema é a dimensão do programa: ele prevê ações em 27 das 39 cidades da grande São Paulo.

Poluição no Tietê

Por Giulia Afiune e Jessica Mota - Agência Pública    

Em 1992, quando o projeto foi criado, 70% do esgoto da região metropolitana de São Paulo era coletado, mas só 24% desse volume era tratado. Ou seja, apenas 17% do total do esgoto era tratado, enquanto 83% eram jogados in natura nos rios, como aponta a Sabesp. Até então, havia apenas duas estações de tratamento, Barueri e Suzano, com capacidade de tratar 4 mil litros de esgoto por segundo. Na primeira etapa do Projeto Tietê foram construídas mais três estações, que entraram em operação só em 1998 e elevaram a capacidade de tratamento para 18 mil litros por segundo.

 O investimento de aproximadamente US$ 3,6 bilhões no projeto ao longo de 23 anos trouxe avanços. Hoje, 87% do esgoto é coletado e 68% desse total, tratado, de acordo com a Sabesp. A mancha de poluição – trecho em que o Tietê é considerado “morto”, já que não consegue abrigar vida porque há pouco oxigênio dissolvido na água – recuou 86,6% desde o início do projeto. Quem atesta é a ONG S.O.S Mata Atlântica, que tem a função de monitorar os indicadores de qualidade da água no Projeto Tietê. Porém, a porcentagem de esgoto coletado caiu de 70% para 68% entre 2008 e 2014.

 O Projeto Tietê foi criado depois de uma campanha encabeçada pela S.O.S Mata Atlântica com veículos de comunicação, principalmente a rádio Eldorado. Na época, reuniu 1,2 milhão de assinaturas que pediam a despoluição do rio. O abaixo-assinado foi entregue ao então governador de São Paulo Luiz Antônio Fleury Filho e ao ex-presidente Fernando Collor na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento – Rio-92. O estado de São Paulo, então, firmou um convênio com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), principal financiador do projeto até hoje, seguido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

 A previsão é que a terceira etapa do projeto seja concluída em 2016, quando 84% do esgoto coletado deverá ser tratado, de acordo com a meta estipulada. A quarta etapa ainda não tem financiamento previsto, segundo apurou a Pública. Embora o governo afirme que a verba virá do BNDES, a assessoria de comunicação da instituição informa que “o Banco ainda não foi procurado com pedido de financiamento para a quarta etapa do Projeto Tietê”.

Wbirajara Silva, o Bira, que trabalhou durante 17 anos na empresa como topógrafo, denuncia obra da Sabesp que desviou esgoto na zona leste para cair direto no rio Tietê. Foto: José Cícero da Silva

Wbirajara Silva, o Bira, que trabalhou durante 17 anos na empresa como topógrafo, denuncia obra da Sabesp que desviou esgoto na zona leste para cair direto no rio Tietê. Foto: José Cícero da Silva

A reportagem da Pública verificou o despejo de esgoto sem tratamento em rios e córregos em diversos pontos da cidade de São Paulo. Em um deles, na Estação Elevatória de Esgoto Jardim Romano, em São Miguel Paulista, zona leste da capital, comprovamos com o uso de corante vermelho que o esgoto coletado pela Sabesp no Jardim Romano corre dos canos diretamente para dentro do rio Tietê, sem passar pela Estação de Tratamento de Esgoto São Miguel, que fica a cerca de 7 km de distância. A cada meia hora, um jato de esgoto é despejado no Tietê – tão volumoso que cai com a mesma potência, sem parar, durante aproximadamente sete minutos.

“Antigamente essa elevatória jogava esgoto dentro de galerias de águas pluviais, e da galeria é que se jogava no Tietê”, conta o ex-funcionário da Sabesp Wbirajara Silva, Bira, que trabalhou durante 17 anos na empresa como topógrafo.

Ele conta que a Sabesp participou da construção de um dique de contenção para represar o Tietê depois da enchente que alagou a zona leste de São Paulo durante meses, em dezembro de 2009. Mas, em vez de melhorar a situação, piorou. “A Sabesp teve que tirar o esgoto que lançava dentro da caixa de águas pluviais e lançou direto no Tietê. Eles falaram que isso era provisório e que ia chegar um coletor-tronco e pegar todo esse esgoto. Só que esse coletor nunca chegou”, denuncia o ex-funcionário.

Nesse caso, trata-se de uma ligação nova, construída 20 anos depois de a Constituição estadual transformar em crime o despejo de esgoto sem tratamento. “Eu tive que fazer um cadastramento de todas essas interligações. Cadastrar é medir e colocar nas plantas da Sabesp o que foi feito, o que está no campo. E essa linha de recalque, que lança dentro do Tietê, não está na planta”, diz Bira. Segundo ele, a ordem de não incluir essa linha nos mapas da empresa veio do seu superior.

No dia 27 de maio, a Pública procurou a Sabesp solicitando uma entrevista sobre o Projeto Tietê, mas ela foi negada. Mandamos então, via e-mail, todas as dúvidas e denúncias apuradas. Trinta e sete dias depois do primeiro contato, a assessoria informou que não iria responder.

 

Tietê, um rio de sujeira e contradições

Responsável pelo projeto de despoluição do rio, a própria Sabesp joga esgoto sem tratamento em seu leito. Bilhões de dólares e 23 anos depois, verbas para saneamento são reduzidas em meio à crise de abastecimento, gerando dúvida se metas serão cumpridas

Por Giulia Afiune e Jessica Mota - Agência Pública     

Um rio de esgoto atravessa a região metropolitana de São Paulo. Grande parte dos dejetos do polo urbano que concentra a maior riqueza do Brasil vai parar no Tietê, o que transformou o maior curso de água do estado em um canal fedorento de aspecto sujo. Quem chega a São Paulo pelo aeroporto de Guarulhos ou pela rodoviária do Tietê é recebido pelo odor desagradável desse anti-cartão postal. Não raro, motoristas da marginal Tietê levantam as janelas para tentar conter o mau cheiro. O odor é o sintoma mais perceptível de que algo está errado com o rio. E, ao contrário do que se pensa, a culpa não é só das moradias improvisadas e sem saneamento básico. A Pública visitou sete bairros e verificou que o despejo de esgoto sem tratamento vem tanto de barracos quanto de mansões.

Desde 1992, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) administra o Projeto Tietê, cujo objetivo é ampliar a coleta e o tratamento de esgoto na Grande São Paulo e, consequentemente, despoluir o rio. A conta do projeto não é exata, mas pelo menos US$ 3,6 bilhões já foram direcionados para as obras.

O problema é que a própria Sabesp é uma das grandes responsáveis pela poluição das águas. A Pública descobriu que em vários pontos da capital a empresa capta o esgoto das casas e o joga sem tratamento nos rios, córregos e represas que compõem a Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, cujo perímetro coincide com os limites da Grande São Paulo – onde vivem 20,2 milhões de pessoas. A prática configura crime ambiental segundo o Artigo 208 da Constituição Estadual.

A empresa foi denunciada pelo Ministério Público em outubro de 2012, e, ao contrário das águas do rio, a peça de acusação é cristalina: “Ocorre que a SABESP vem, desde sua criação, direta e ininterruptamente, em maior ou menor escala, lançando nos corpos d’água os esgotos sanitários in natura coletados nessas cidades, isto é, sem nenhum tipo de tratamento, provocando poluição hídrica não só na bacia hidrográfica do Alto Tietê onde estão inseridos os municípios, mas também nos reservatórios Billings e Guarapiranga, com vultosos prejuízos ao meio ambiente e à sociedade”, relata então o promotor de Justiça do Meio Ambiente José Eduardo Ismael Lutti. O texto aponta também o município, o estado de São Paulo e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que financia o projeto de despoluição, como corresponsáveis pela prática ilegal. Na ação, o Ministério Público exige que até 2018 os réus parem progressivamente de lançar esgoto sem tratamento nos corpos d’água e realizem todas as obras necessárias à universalização do serviço de coleta e tratamento de esgoto.

Marzeni Pereira, ex-funcionário da Sabesp, trabalhou como tecnólogo em uma estação de tratamento por 12 anos. Foto: José Cícero da Silva

A ação deu início a um processo que agora está tramitando na Justiça paulista. Em sentença de setembro de 2014, a juíza Liliane Keyko Hioki reconhece que a Sabesp é responsável pela prática ilícita, mas julga improcedente o pedido do Ministério Público, alegando que não é possível antecipar a meta de universalização para 2018, uma vez que a Sabesp já está tomando as providências para realizá-la até 2024. O Ministério Público recorreu. A meta considerada pela juíza difere da estipulada pelo governador Geraldo Alckmin. Em decreto, ele determina que o esgoto seja universalizado no estado até 2020.

Marzeni Pereira, tecnólogo que trabalhou em uma estação de tratamento da Sabesp por 12 anos, explica que sentir cheiro de esgoto, algo comum na região metropolitana, é sinal de que há algo errado. “Quando se sente cheiro de esgoto saindo dos bueiros, ou os moradores jogaram o esgoto na rede de águas da chuva ou a Sabesp”, explica. Isso acontece onde não há tubos que levam o esgoto dos bairros para as estações de tratamento. Em vez disso, ele é levado para  galerias de água da chuva que deságuam em córregos.

Idealmente, o esgoto é transportado dentro de tubos subterrâneos, dos pontos mais altos para os mais baixos. Tudo que é eliminado no vaso sanitário, nas pias e nos ralos sai das casas dentro de ligações domiciliares em direção a redes coletoras que passam em cada rua. Várias redes são ligadas a um coletor-tronco e vários coletores, a um interceptor. Construídos próximos a rios, os interceptores levam o esgoto de diversos bairros até as estações de tratamento (ETEs). Quando não há declividade suficiente, estações elevatórias são construídas para bombear o esgoto pela tubulação. Já a água da chuva escorre para dentro de bueiros ou bocas de lobo até as galerias de água pluvial, que a levam, por baixo do asfalto, até rios de grande ou pequeno porte, os córregos.

A poluição e o mau cheiro das águas fazem mal à saúde de todos os habitantes, explica o professor Pedro Mancuso, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). O cheiro de ovo podre que sai dos rios poluídos é causado pelo gás sulfídrico, uma substância tóxica. “Em grandes quantidades, ele pode ser até mortal, mas em pequenas quantidades, como essa que está no nosso rio, é suficiente para dar náusea, dor de cabeça, e tontura.” O gás continua causando esses efeitos mesmo quando “cansa” nosso olfato. “Depois de um tempo, ele anestesia os nervos do nariz e a pessoa não sente mais. Então, quem chega no rio fala ‘nossa, que odor forte’ e quem mora ali do lado fala ‘ah, a gente já se acostuma, acaba não sentindo mais’”, ensina Mancuso.

Da mesma forma, a população da grande São Paulo parece ter se acostumado a ignorar ou a desprezar o rio. A maioria das pessoas não tem a menor ideia se o esgoto da própria casa tem destino adequado. Mas quem mora na região metropolitana já deve ter se perguntado:

 

Abraço Guarapiranga em sua décima edição pede carinho e atenção para os mananciais

Foto: Mídia Ninja

por Fernanda Otero para o ContaDagua

A Assembleia Estadual da Água deixou seu recado: “Água não se vende, é um direito!!”. Índios Guaranis cantaram seu rap em defesa da represa do Guarapiranga e impressionaram pelo gingado. Por volta das 13 horas do domingo (31) chuvoso e frio em São Paulo, um grande número de ativistas, ecologistas, professores, membros da sociedade civil, crianças, tribos de todas as idades e origens deram-se as mãos e abraçaram a represa. A décima edição do Abraço à Guarapiranga foi registrada pela filmagem de um drone, numa parceria entre Mídia Ninja e Greenpeace, que participavam do grande pool de apoiadores e organizadores do Abraço.

Foto: Imagéns aéreas realizadas pelo drone do Contadagua.org

Uma intervenção do grafiteiro Mundano presenteou o parque da Guarapiranga. Ele explicou que a intervenção foi pensada para ser vista do alto. Reuniu rapidamente 20 pessoas que ajudaram a realizar o trabalho Mundano conta que foi convidado pela Sabesp, a companhia responsável pelo abastecimento de água e saneamento do estado, para realizar uma intervenção para o Dia do Meio Ambiente, mas declinou o convite.

Tem atuado ativamente em questões relativas à crise da água, com destaque para uma intervenção na represa da Cantareira, quando grafitou um carro que emergiu do fundo da represa durante a seca do ano passado. Esse grafite repercutiu na imprensa tradicional e provocou a remoção de 21 carros que estavam submersos no fundo do leito exposto pela seca. Mundano afirmou esperar que o seu trabalho “inspire as pessoas e traga consciência para a questão da crise hídrica”.

Foto; Mídia Ninja
Foto: Mídia Ninja

A Pedalada do Abraço também marcou presença com suas bicicletas e bandeiras com o símbolo do Abraço. A Associação de Moradores Movimento Anchieta estava fortemente representada, e entidades como Slow Food e Cáritas também participaram. (confira no final do texto a lista completa dos participantes da ação”)

“A água do Guarapiranga tem pouca poluição industrial. Sua poluição vem de esgoto não tratado”,afirmou o coordenador do Movimento Garça Vermelha, Eduardo Melander Filho. Segundo ele, a qualidade da água da represa ainda é boa. “São dez anos de Abraço para conscientizar a população e o poder público sobre a importância da água e da sua preservação”. Segundo ele sublinhou:

“o movimento avisava sobre a iminência de uma crise de abastecimento havia muitos anos, e nada foi feito pelo poder público.”

O deputado estadual Enio Tatto (PT-SP), que participa do Abraço à Guarapiranga desde a primeira edição, ressaltou que um avanço importante para a preservação do manancial é a Lei Específica do Guarapiranga (Lei 12.233/2006), aprovada “com alguns avanços”.

Foto: Mídia Ninja
Foto: Mídia Ninja

“A importância do Abraço é a conscientização, já que mais de 50% do esgoto que é coletado não é tratado e volta para a represa”, disse Tatto em entrevista aos Jornalistas Livres. “Com a crise do Sistema Cantareira, quem socorreu diversas regiões da cidade de São Paulo e da região metropolitana foi a Guarapiranga, daí a necessidade de preservar o manancial, principalmente por parte da Sabesp e do Governo do Estado. Depois de 20 anos, o governo não trata o esgoto. Temos que lutar o tempo todo para preservar esse manancial.”

Questionado pela reportagem, Tatto afirmou que não vê perspectiva de que seja constituída uma CPI na Assembleia Legislativa do Estado para investigar a Sabesp, devido à dificuldade de conseguir o número de assinaturas necessárias. Disse acreditar que existem outros mecanismos de fiscalização da companhia atualmente controlada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB): “Mobilização, denúncia, representação e outras atividades”.

Edson Aparecido da Silva, coordenador do Coletivo de Luta pela Água, nos contou que o coletivo foi organizado no começo de 2015 e é um espaço de articulação entre as várias entidades que o compõem, dos movimentos sindical, popular e de luta por moradia. O objetivo é o de construir propostas para minimizar os efeitos da falta de água em São Paulo, que afeta principalmente a população da periferia da cidade.

Foto: Mídia Ninja
Foto: Mídia Ninja – Bloco Afro é Di Santo  puxou  o arrastão do Abraço 

Edson informou que o Coletivo está organizando um Curso de Formação de Formadores sobre a Crise da Água, cujo objetivo é socializar a compreensão sobre a crise para lideranças do movimento popular. O curso acontecerá dia 27 de junho, na sede da Vila Mariana (R.Machado de Assis, 150). O Coletivo também formará um Tribunal Popular da Água, com o objetivo de “julgar o governador Geraldo Alckmin pelo que não fez para evitar que a crise atingisse a situação que atingiu”, explicou. Uma fanpage contém as informações e a agenda de atividades do Coletivo de Luta pela Água.

O Abraço à Guarapiranga foi pensado depois de três dias de um seminário realizado em 2006, que reuniu várias organizações e especialistas para discutir propostas para a Guarapiranga, no ano do seu centenário. A coordenadora da Aliança pela Água, Marussia Whately, disse que as primeiras edições do Abraço foram de apresentação de uma agenda positiva para a recuperação da represa e de um placar de ações no qual cada entidade apresentava suas iniciativas. “O propósito era de que as pessoas pudessem se reconectar com as fontes de água e pudessem demonstrar seu carinho e respeito pela represa, além da indignação pela poluição nela depositada”, relatou Marussia.

Além da organização do Abraço, são diversas ações desenvolvidas pela Aliança, que é composta por mais de 50 entidades da sociedade civil, com uma intensa agenda de atividades. Segundo Marussia, um relatório que comprova a violação dos direitos humanos será entregue ao Relator da ONU para o Direito à Água e Saneamento, Léo Heller, em julho, e deve conter uma série de denúncias além da negação do direito à água, o acesso à informação e ao meio ambiente.

O secretário paulistano de Cultura, Nabil Bonduki, foi levar seu abraço à represa e destacou: “O ato chama a atenção para a importância dos nossos recursos hídricos. A região metropolitana de São Paulo consome mais água do que produz, e a Guarapiranga é o manancial mais importante da região”.Segundo o secretário,são necessárias ações de conscientização do uso da água, “com adoção de medidas como reuso, cisternas e captação de água da chuva”.

Mauro Scarpinatti, um dos idealizadores do Abraço à Guarapiranga e coordenador da Rede De Olho nos Mananciais, se disse surpreso com a grande adesão deste ano em virtude da chuva fina e fria que caiu pela manhã e ainda assim reuniu 1.500 pessoas em torno na represa.

Para Mauro, a edição de 2015 ficará marcada por conta da participação dos movimentos de moradia, que estiveram em grande número no Abraço. Essa aproximação deve ser tratada “com um carinho enorme pois abre uma nova perspectiva de diálogo mais profundo para construir alternativas de desenvolvimento juntos”.

Segundo Mauro, há setores do movimento ambientalista que “muitas vezes satanizam e estigmatizam” os movimentos de moradia por causa das ocupações que acontecem nas áreas de mananciais, mas essas ocupações são “resultado de processos de negação e exclusão de direitos”. O processo de aproximação com os movimentos de moradia vem sendo construído ao longo dos anos, e pode ser considerado um marco histórico o movimento de moradia ter assumido o Abraço à Guarapiranga. Mauro festejou também a participação dos índios Guaranis na décima edição. “São pequenas vitórias, mas são vitórias”,ressaltou, lembrando a conquista da demarcação das terras do Jaraguá e a luta antiga pela demarcação das terras dos Guaranis em Parelheiros.

Encerrando a cobertura da 10ª Abraço à Guarapiranga, e rompendo a barreira do formalismo de um relato convencional apresentado por esta repórter, o fotógrafo e cinegrafista Christian Braga, da Mídia Ninja, pediu a palavra e questionou “Posso fazer uma pergunta?”. Foi prontamente atendido por Mauro Scarpinatti, que além de militante da defesa do Guarapiranga é professor e pessoa de rara sensibilidade: “Claro!”.

Christian: “Por que a palavra ‘Abraço’?

Mauro: “Abraço, porque… A gente costuma dizer que a gente abraça… Aliás, eu nunca falei isso… A gente costuma dizer que a gente abraça aquilo que a gente gosta…..A gente abraça…. O abraço é um gesto de carinho… Ninguém abraça aquilo que não gosta… É um gesto de carinho!!!”.

Mauro foi pego de surpresa com uma pergunta simples, perdeu o fôlego para uma palavra que carrega essa forte energia do cuidado e da atenção, elementos essenciais para realizar o trabalho a que ele se dedica ao longo de tantos anos. O abraço que alguém teve a curiosidade de tentar entender.

Sem ter muito mais o que explicar, terminamos a cobertura com um abraço, o nosso abraço à represa e o nosso abraço ao Mauro pela sua crença nesse projeto de defesa das águas. Oxalá essa energia de carinho e cuidado com o meio ambiente e com o manancial, compartilhada por todas as pessoas que ali estiveram, contagie outros. Pelo futuro e saúde das águas da represa e por que não?, pelo futuro do planeta.

Abraço Guarapiranga:

Organização
Rede de Olho nos Mananciais

Promoção

Aliança Pela Água

Assembleia Estadual da Água

Associação Cultural Corrente Libertadora

Associação Movimento Garça Vermelha (Mogave)

BEM TE VI Diversidade

Bloco É di Santo

Bora Plantar

Cidade Democrática

Cisterna Já

Coletivo Curupira

Coletivo de Luta pela Água

Conselho Gestor da Apa Bororé-Colônia

Conselho Gestor da Apa Capivari-Monos

Conselho Gestor do Parque  Castelo e 9 de Julho

Conselho Gestor do Parque da Barragem

Conselho Gestor do Parque Jacque Cousteau

Cooperapas Agricultura Orgânica de Parelheiros

Diocese de Campo Limpo

Espaço de Formação Assessoria e Documentação

Fórum em Defesa da Vida do M’Boi Mirim

Fundação Avina

Greenpeace Brasil

Grupo Escoteiro Almirante Tamandaré

IDEC – Instituto de Defesa do Consumidor

IDS – Instituto Democracia e Sustentabilidade

Instituto 5 Elementos

Instituto Alana

Instituto Auá de Empreendedorismo Socioambiental

Instituto Biguá Eco-estudantil

Instituto Casa da Cidade

Instituto Jatobas

Instituto Kairós

Instituto Socioambiental – ISA

IPÊ – Instituto de Pesquisa Ecológicas

Mídia Ninja

Minha Sampa

Movimento de Defesa da Vida (MDV-ABCD)

Paróquia Santos Mártires
Aliança pela Água

Sindicato dos Comerciários de São Paulo

Sociedade Santos Mártires

SOS Mata Atlântica
GT Meio Ambiente da Rede Nossa São Paulo

TNC BRASIL

União Geral dos Trabalhadores (Central Sindical UGT)

Virada Sustentável

Volume Vivo

WRI Brasil

WWF Brasil

ZNnaLinha

Bike Zona Sul

Fernando Bike

Holanda Bike

Bike é Legal

Ciclo BR

Ciclo Bike Life

Parelheiros Turístico

Apoio

Prefeitura de São Paulo

CET

SPTrans

SPTuris

Secretaria do Verde e do Meio Ambiente

Subprefeitura de Capela do Socorro

Subprefeitura de Parelheiros

Subprefeitura do M’Boi Mirim

Supervisão Técnica de Saúde de Capela do Socorro

 

Abraço à Guarapiranga, ocorrerá em meio à crise da água

Os organizadores elegeram como tema a frase: Água é direito humano, não se vende, se defende!

O Abraço à Guarapiranga é uma manifestação de respeito e carinho da população com as fontes de água de São Paulo, e também, um ato de denuncia e indignação pelo descuido com a preservação dos mananciais. O evento ocorre desde 2006, ano em que a represa completou seu primeiro centenário.

Segundo a organização, em sua 10º edição o Abraço irá mobilizar e alertar os cidadãos, as empresas e os governos para a urgência de  se construir  uma nova cultura de cuidado com a água.

Mauro Scarpinatti, um dos organizadores do Abraço lembra que “a ciência  aponta que, no Brasil, os eventos extremos causados pelas mudanças climáticas estarão relacionados, sobretudo, com a água. Tanto as secas quanto as enchentes tendem a ficar mais intensas, frequentes e duradouras, o que traz enormes perdas para toda a sociedade”. Destaca ainda, que há mais de um ano, São Paulo vive uma crise no abastecimento de água sem precedentes e que a população tem assistido os mananciais atingirem níveis críticos de armazenamento. A falta d’água virou rotina para grande parte dos moradores da cidade, sobretudo dos bairros mais distantes da região central, isso tem levado as pessoas a estocarem água muitas vezes de maneira inadequada, o que acaba por favorecer a disseminação da dengue.

Também segundo a organização do Abraço, as obras anunciadas pelo governo reforçam a velha prática de simplesmente aumentar a oferta de água buscando o recurso cada vez mais longe, sem apresentar medidas concretas de redução do consumo e de preservação efetiva das áreas verdes que protegem os mananciais. Estas sim alternativas sustentáveis para garantir água em quantidade e qualidade para a população

As represas Guarapiranga e Billings continuam sendo agredidas diariamente pelo despejo de esgoto, ocupações desordenadas, desmatamentos, afrouxamento da legislação, sendo alvos inclusive da cobiça imobiliária e de grandes empreendimentos como rodovias e aeroportos.

O Abraço à Guarapiranga 2015 elegeu como tema “Água é direito humano, não se vende se defende!”. Sem água não há vida. Nada justifica que a água continue a ser tratada como mera mercadoria. Para nós, a água é um direito humano fundamental e convidamos toda a sociedade para assumir sua defesa.

Serviço:

Abraço Guarapiranga 31.05.15

Programação:

Jardim Ângela – M’Boi Mirim

 8h00 – Saída de caminhadas das Paróquias da Região em direção ao Parque Ecológico do Guarapiranga;

9h30 – Celebração de Missa Campal no Parque Ecológico do Guarapiranga;

11h30 – Plantio simbólico de mudas;

12h00 – Abraço  à Guarapiranga;

Parque da Barragem Av. Atlântica, altura do nº 1.100 em frente ao 102 DP - Capela do Socorro

 8h00 – Balão (depende das condições climáticas)

A partir das 9h30

- Oficinas de ikebana, Johrei , oficinas de sustentabilidade, atividades ambientais, exposições;

- Tenda dos produtores orgânicos de Parelheiros, ONGs, etc.

- Distribuição de 1.000 mudas em tubetes;

- Local para piquenique

10h00 – Saída do passeio ciclístico

10h00 – Shows  Zé Márcio e Claudio Lopes (Instrumental), Décio Sá (viola e berimbau), Grupo Casa das Corujas (samba de roda), Thiago do Reggae, Arrastão do Beco (Grupo de percussão popular),  Maracatu Bloco de Pedra

11h00 – Plantio simbólico de mudas;

12h00 – Arrastão de maracatu para o Abraço à Guarapiranga.

 Siga @mananciaissp no Twitter

facebook.com/deolhonosmananciais