Alto Tietê

Esse texto contou com a colaboração de Suzana Sendacz, pesquisadora do Instituto de Pesca, Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.

A Bacia Hidrográfica do Alto Tietê – Cabeceiras tem 1.889 km2 de área de drenagem e é constituída pelos rios Tietê (desde sua nascente até a divisa com Itaquaquecetuba), Claro, Paraitinga, Biritiba-mirim, Jundiaí e Taiaçupeba-mirim. Nesta bacia, estão presentes os reservatórios Ribeirão dos Campos, Ponte Nova (no município de Salesópolis), Jundiaí (em Mogi das Cruzes), Taiaçupeba (na divisa de Mogi das Cruzes e Suzano), Biritiba (em Biritiba-Mirim) e Paraitinga (em Salesópolis), tendo sido os os dois últimos recentemente concluídos.

Os resevatórios Ponte Nova, Paraitinga, Biritiba Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba formam o Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT), que constitui um sistema em cascata no qual os reservatórios são interligados através de sistemas de túneis e canais, com a finalidade de aumentar a captação de água para abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).

As águas provenientes dos reservatórios Ponte Nova e Paraitinga são parcialmente derivadas para uma estação elevatória, onde são recalcadas até o túnel de interligação Tietê/Biritiba, a partir do qual todo o escoamento é feito por gravidade. Através de sistemas canal-túnel-canal, á água é transferida para o reservatório Jundiaí, e, posteriormente, para o reservatório de Taiaçupeba, onde é feita a captação pela SABESP.

O sistema em cascata está em funcionamento desde junho de 1999, e atualmente disponibiliza um total de água de 10 m³/s, desde a entrada em funcionamento dos reservatórios Biritiba e Paraitinga. A meta é disponibilizar até 15 m³/s de água para a RMSP.

Nos reservatórios em cascata, ocorre geralmente uma diminuição dos poluentes ao longo da sistema, pois o reservatório a montante tem o papel de reter parte dos poluentes e nutrientes, levando a uma melhora na qualidade das águas e sedimentos ao longo da cascata. No entanto, ao invés da gradual melhora da qualidade da água ao longo da série de reservatórios do SPAT, tem sido constatado o aumento progressivo dos efeitos da eutrofização (excesso de nutrientes na água, principalmente nitrogênio e fósforo) ao longo do sistema.

Características dos reservatórios que compõem o Sistema Produtor Alto Tietê:

Data Área de Drenagem
(km²)
Área inundada
(km²)
Volume útil
(m³)
Ponte Nova  1972 320 28.07 296×106
Paraitinga 2006 184 6.43 35×106
Biritiba 2006 75 9.24 34.40×106
Jundiaí 1992 116 17.42 60×106
Taiaçupeba 1976 224 19.36 87.90×106

Os reservatórios desta bacia foram implantados em áreas onde os solos são ricos em nutrientes, devido aos usos agrícolas e ao desmatamento realizado antes do enchimento das represas. Um dos principais responsáveis pela aceleração do processo de eutrofização é a quantidade de nutrientes com origem nos sedimentos presentes no local onde é construído o reservatório.

Os rios e os demais cursos d´água são os principais caminhos para o transporte de nitrogênio e fósforo lagos e reservatórios, pois eles conectam várias fontes pontuais e difusas destes elementos dentro dos mananciais. Atividades como o desmatamento, o cultivo extensivo e a disposição de detritos urbanos, além dos usos agrícolas, industriais e domésticos, causaram aumento, nas últimas décadas, do transporte de nitrogênio e fósforo do meio ambiente terrestre para o aquático.

Ao longo do Sistema Produtor Alto Tietê ocorre um aumento progressivo dos efeitos da eutrofização. Desde 1997, as concentrações de variáveis associadas à qualidade da água, tais como o fósforo total e a clorofila -a, vêm apresentando valores elevados nos reservatórios Jundiaí e Taiaçupeba, onde florações de cianobactérias (algas azuis produtoras de toxinas que, se liberadas no ambiente e consumidas pelo homem, podem ser prejudiciais à saúde) são constantes. A transferência de água, a partir do primeiro reservatório (Ponte Nova) através de canais com elevadas vazões faz com que grande quantidade de nitrogênio e fósforo seja transportada aos demais reservatórios (Jundiaí e Taiaçupeba).
No período de estiagem, a transferência de água é intensificada, verificando-se elevadas vazões a jusante do reservatório Ponte Nova e no canal Jundiaí-Taiaçupeba, para garantir a quantidade de água necessária para captação no reservatório Taiaçupeba. No período chuvoso, verifica-se uma redução nas vazões, com a finalidade de armazenar água no reservatório Ponte Nova, utilizado como reserva para o abastecimento de parte da RMSP.

Principais ameaças
Carga interna de nutrientes
Conseqüência:
um intenso desenvolvimento de cianobactérias, que potencialmente podem produzir toxinas (Jundiaí e Taiaçupeba), e crescimento excessivo de plantas aquáticas tais como o aguapé (Eichornia crassipes) e alface d’ água (Pistia stratiotes), principalmente no reservatório Biritiba Mirim.

Manejo
Visando atender uma demanda crescente de aproximadamente 19 milhões de pessoas diariamente, fornecendo cerca de 10 m3/s, 12% do total abastecido para a RMSP, os reservatórios que compõem o Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT) estão submetidos a um manejo hidráulico que contempla transposições de água entre represas, causando um impacto negativo acumulativo nos corpos receptores. No sistema Tietê Cabeceiras o manejo a que são submetidos os reservatórios envolvidos, através da regulação de vazões, exerce forte influência na dinâmica do sistema.

Recomendações
Determinação da vazão ecológica de todo o sistema, de modo a compatibilizar os aspectos hidrológicos, ecológicos e socioeconômicos e atender a demanda dos usos múltiplos da água.

Remoção de nutrientes do sistema através do manejo de macrófitas aquáticas flutuantes, ou seja, controle populacional de plantas que se reproduzem excessivamente nas represas quando há grande quantidade de nutrientes na água.

 

Mananciais de São Paulo (fonte:Sabesp)

Na Região Metropolitana de São Paulo, o sistema de abastecimento é integrado: 8 complexos são responsáveis pela produção de 67 mil litros de água por segundo, para atender 33 municípios atendidos pela Sabesp e outros 6 que compram água por atacado (Santo André, São Caetano do Sul, Guarulhos, Mogi das Cruzes, Diadema e Mauá).

Saiba quais são os sistemas
Alto Cotia – A água vem da represa Pedro Beicht, formada pelos rios Capivari e Cotia do Peixe. A captação é feita na represa da Graça e transportada para a Estação de Tratamento Morro Grande. A produção de 1.000 litros de água por segundo abastece cerca de 400 mil habitantes dos municípios de Cotia, Embu, Itapecerica da Serra, Embu-Guaçu e Vargem Grande.

Baixo Cotia – A fonte de abastecimento é a Barragem do Rio Cotia. A produção de 900 litros por segundos é responsável pelo abastecimento de aproximadamente 460 mil moradores de áreas da Zona Oeste da Região Metropolitana de São Paulo, como Barueri, Jandira e Itapevi.

Alto Tietê – O sistema é formado pelos rios Tietê, Claro, Paraitinga, Biritiba, Jundiaí, Grande, Doce, Taiaçupeba-Mirim, Taiaçupeba-Açu e Balainho. O tratamento é realizado na Estação Taiaçupeba e atinge 10 mil litros por segundo, responsáveis pelo abastecimento de cerca de 3,1 milhões de pessoas da Zona Leste da capital e dos municípios de Arujá, Itaquaquecetuba, Poá, Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mauá, Mogi das Cruzes, parte de Santo André e dois bairros de Guarulhos (Pimentas e Bonsucesso).

Cantareira – É o maior da Região Metropolitana de São Paulo. Na Estação do Guaraú são tratados 33 mil litros de água por segundo, que atendem às necessidades de 8,1 milhões de pessoas das Zonas Norte, Central e partes das Zonas Leste e Oeste da capital, bem como os municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Carapicuíba e São Caetano do Sul, além de parte dos municípios de Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra e Santo André. O sistema é formado pelos rios Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Juqueri (Paiva Castro).

Guarapiranga – É o segundo maior sistema de água da Região Metropolitana, localizado nas proximidades da Serra do Mar. Sua água é proveniente da represa Guarapiranga (formada pelos rios Embu-Mirim, Embu-Guaçu, Santa Rita, Vermelho, Ribeirão Itaim, Capivari e Parelheiros) e da Represa Billings (Rio Taquacetuba). Produz 14 mil litros de água por segundo e abastece 3,8 milhões de pessoas das Zonas Sul e Sudoeste da Capital.

Ribeirão da Estiva – Capta água do Rio Ribeirão da Estiva e produz 100 litros de água por segundo. Abastece 40 mil pessoas dos municípios de Rio Grande da Serra. O sistema foi escolhido para receber e colocar em prática as novas tecnologias desenvolvidas pela Sabesp ou por parcerias com universidades e centros de pesquisa. O objetivo é torná-lo um centro de referência tecnológica em automação, em todas as fases de produção de água.

Rio Claro – Localizado a 70 km da Capital, produz 4 mil litros por segundo. A água vem do rio Ribeirão do Campo e é tratada na Estação Casa Grande. Abastece 1,2 milhão de pessoas do bairro de Sapopemba, na Capital, e parte dos municípios de Ribeirão Pires, Mauá e Santo André. O sistema foi construído na década de 30, e foi ampliado na década de 70.

Rio Grande – É um braço da Represa Billings. Produz 4,8 mil litros de água por segundo e abastece 1,6 milhão de pessoas em Diadema, São Bernardo do Campo e parte de Santo André.

Fonte: site Sabesp

Mananciais de São Paulo

As áreas de mananciais da RMSP – que são responsáveis pela produção de água para abastecimento de toda a população, além da manutenção de atividades econômicas – ocupam 52% do seu território, englobam total ou parcialmente 25 dos 39 municípios que compõem a região.

A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) já apresenta sérios problemas para garantir água em quantidade e qualidade adequada para seus 20 milhões de habitantes. A má gestão desse recurso resulta na destruição de importantes fontes de água, em altas taxas de desperdício e na destruição de seus mananciais pela expansão urbana.

A baixa disponibilidade hídrica da região – localizada próxima às cabeceiras do Rio Tietê – foi acentuada ao longo de sua história em função da poluição e da destruição de seus mananciais, entre eles os rios Tietê, Pinheiros, Ipiranga, Anhangabaú e Tamanduateí. Hoje a região é obrigada a importar água e a investir em sistemas de tratamento avançado para transformar água de péssima qualidade em água potável.

Para dar conta do abastecimento atual de sua população, são necessários oito sistemas produtores de água, que produzem aproximadamente 68 mil litros de água por segundo (ou 5,8 bilhões de litros de água por dia), uma quantidade de água suficiente para encher 2.250 piscinas olímpicas por dia.

A RMSP importa mais da metade da água que consome da Bacia do Rio Piracicaba, através do Sistema Cantareira – que está a mais de 70 Km do centro de São Paulo e conta com seis represas interligadas por túneis. O restante da água é produzida pelos mananciais que ainda restam na região – em especial Billings, Guarapiranga e cabeceiras do Rio Tietê – e que sofrem intenso processo de ocupação, a despeito da Lei de Proteção aos Mananciais estar em vigor desde 1975.

A quantidade de água produzida para abastecimento está muito próxima da disponibilidade hídrica dos mananciais existentes. Essa pequena folga coloca a região em uma situação frágil, onde um período de estiagem mais prolongado pode resultar em racionamento de água para grande parte da população. E, em pouco tempo, a região precisará de mais água. Porém, novas fontes de água dependem de construção de represas, que demandam áreas para serem alagadas, tempo e recursos financeiros que são pouco acessíveis atualmente, o que reforça a necessidade de preservação e uso adequado dos mananciais existentes.

o que são mananciais?

Mananciais de água são as fontes, superficiais ou subterrâneas, utilizadas para abastecimento humano e manutenção de atividades econômicas. As áreas de mananciais compreendem as porções do território percorridas e drenadas pelos cursos d’água, desde as nascentes até os rios e represas.