Uma campanha pela preservação das fontes de água de São Paulo

Alto Tietê

A Bacia Hidrográfica do Alto Tietê - Cabeceiras tem 1.889 km2 de área de drenagem e é constituída pelos rios Tietê (desde sua nascente até a divisa com Itaquaquecetuba), Claro, Paraitinga, Biritiba-mirim, Jundiaí e Taiaçupeba-mirim. Nesta bacia, estão presentes os reservatórios Ribeirão dos Campos, Ponte Nova  (no município de Salesópolis), Jundiaí (em Mogi das Cruzes), Taiaçupeba (na divisa de Mogi das Cruzes e Suzano), Biritiba (em Biritiba-Mirim) e Paraitinga (em Salesópolis), tendo sido os os dois últimos recentemente concluídos.

Os resevatórios Ponte Nova, Paraitinga, Biritiba Mirim, Jundiaí e Taiaçupeba formam o Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT), que constitui um sistema em cascata no qual os reservatórios são interligados através de sistemas de túneis e canais, com a finalidade de aumentar a captação de água para abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).

As águas provenientes dos reservatórios Ponte Nova e Paraitinga são parcialmente derivadas para uma estação elevatória, onde são recalcadas até o túnel de interligação Tietê/Biritiba, a partir do qual todo o escoamento é feito por gravidade. Através de sistemas canal-túnel-canal, á água é transferida para o reservatório Jundiaí, e, posteriormente, para o reservatório de Taiaçupeba, onde é feita a captação pela SABESP.

O sistema em cascata está em funcionamento desde junho de 1999, e atualmente disponibiliza um total de água de 10 m³/s, desde a entrada em funcionamento dos reservatórios Biritiba e Paraitinga. A meta é disponibilizar até 15 m³/s de água para a RMSP.

Nos reservatórios em cascata, ocorre geralmente uma diminuição dos poluentes ao longo da sistema, pois o reservatório a montante tem o papel de reter parte dos poluentes e nutrientes, levando a uma melhora na qualidade das águas e sedimentos ao longo da cascata. No entanto, ao invés da gradual melhora da qualidade da água ao longo da série de reservatórios do SPAT, tem sido constatado o aumento progressivo dos efeitos da eutrofização (excesso de nutrientes na água, principalmente nitrogênio e fósforo) ao longo do sistema.

Características dos reservatórios que compõem o Sistema Produtor Alto Tietê:

 
Característica dos reservatórios
DATA
Área de Drenagem (km²)
Área inundada (km²)
Volume útil (m³)
Ponte Nova
1972
320
28.07
296x106
Paraitinga
2006
184
6.43
35x106
Biritiba
2006
75
9.24
34.40x106
Jundiaí
1992
116
17.42
60x106
Taiaçupeba
1976
224
19.36
87.90x106

Os reservatórios desta bacia foram implantados em áreas onde os solos são ricos em nutrientes, devido aos usos agrícolas e ao desmatamento realizado antes do enchimento das represas. Um dos principais responsáveis pela aceleração do processo de eutrofização é a quantidade de nutrientes com origem nos sedimentos presentes no local onde é construído o reservatório.

Os rios e os demais cursos d´água são os principais caminhos para o transporte de nitrogênio e fósforo lagos e reservatórios, pois eles conectam várias fontes pontuais e difusas destes elementos dentro dos mananciais. Atividades como o desmatamento, o cultivo extensivo e a disposição de detritos urbanos, além dos usos agrícolas, industriais e domésticos, causaram aumento, nas últimas décadas, do transporte de nitrogênio e fósforo do meio ambiente terrestre para o aquático.

Ao longo do Sistema Produtor Alto Tietê ocorre um aumento progressivo dos efeitos da eutrofização. Desde 1997, as concentrações de variáveis associadas à qualidade da água, tais como o fósforo total e a clorofila -a, vêm apresentando valores elevados nos reservatórios Jundiaí e Taiaçupeba, onde florações de cianobactérias (algas azuis produtoras de toxinas que, se liberadas no ambiente e consumidas pelo homem, podem ser prejudiciais à saúde) são constantes. A transferência de água, a partir do primeiro reservatório (Ponte Nova) através de canais com elevadas vazões faz com que grande quantidade de nitrogênio e fósforo seja transportada aos demais reservatórios (Jundiaí e Taiaçupeba).

No período de estiagem, a transferência de água é intensificada, verificando-se elevadas vazões a jusante do reservatório Ponte Nova e no canal Jundiaí-Taiaçupeba, para garantir a quantidade de água necessária para captação no reservatório Taiaçupeba. No período chuvoso, verifica-se uma redução nas vazões, com a finalidade de armazenar água no reservatório Ponte Nova, utilizado como reserva para o abastecimento de parte da RMSP.

Principais ameaças


Carga interna de nutrientes

Conseqüência: um intenso desenvolvimento de cianobactérias, que potencialmente podem produzir toxinas (Jundiaí e Taiaçupeba), e crescimento excessivo de plantas aquáticas tais como o aguapé (Eichornia crassipes) e alface d’ água (Pistia stratiotes), principalmente no reservatório Biritiba Mirim.

Manejo

Visando atender uma demanda crescente de aproximadamente 19 milhões de pessoas diariamente, fornecendo cerca de 10 m3/s, 12% do total abastecido para a RMSP, os reservatórios que compõem o Sistema Produtor Alto Tietê (SPAT) estão submetidos a um manejo hidráulico que contempla transposições de água entre represas, causando um impacto negativo acumulativo nos corpos receptores. No sistema Tietê Cabeceiras o manejo a que são submetidos os reservatórios envolvidos, através da regulação de vazões, exerce forte influência na dinâmica do sistema.

Recomendações

Determinação da vazão ecológica de todo o sistema, de modo a compatibilizar os aspectos hidrológicos, ecológicos e socioeconômicos  e atender a demanda dos usos múltiplos da água.

Remoção de nutrientes do sistema através do manejo de macrófitas aquáticas flutuantes, ou seja, controle populacional de plantas que se reproduzem excessivamente nas represas quando há grande quantidade de nutrientes na água. 

Esse texto contou com a colaboração de Suzana Sendacz, pesquisadora do Instituto de Pesca, Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo.