Seminário Billings 2002

O Seminário Billings 2002 , realizado entre os dias 19 e 21 de novembro de 2002, em Ribeirão Pires, teve como principal objetivo estabelecer um processo de discussão e proposição de ações de recuperação e preservação da Bacia Hidrográfica da Billings, visando sua utilização para abastecimento público. Para tal, contou com a participação da comunidade científica e acadêmica, das organizações governamentais e não governamentais, da comunidade empresarial e de movimentos sociais relacionados diretamente com os propósitos do trabalho.

Com duração de três dias de imersão total, o Seminário reuniu 193 especialistas em temas diversos, que trabalharam em grupos para definir as áreas e ações prioritárias. No primeiro dia, os participantes se reuniram em grupos temáticos, no dia seguinte em grupos por sub-regiões da Bacia Hidrográfica da Billings, e no terceiro e último dia, em grupos de recomendações gerais para a bacia. Para a consolidação dos resultados deste último dia de trabalho, os participantes foram convocados para uma nova reunião, que ocorreu no dia 16 dezembro de 2002, no Instituto Goethe, em São Paulo.

Esta iniciativa foi resultado de uma parceria entre o Instituto Socioambiental, Secretaria de Estado do Meio Ambiente de São Paulo, Sub-Comitê de Bacia Hidrográfica da Billings, Prefeitura Municipal de Ribeirão Pires, Secretarias Municipais de Habitação e de Meio Ambiente do Município de São Paulo, Instituto Acqua, Associação Global de Desenvolvimento Sustentado – AGDS e Senac, e contou com o apoio do Fundo Estadual de Recursos Hídricos – Fehidro, Financiadora de Estudos e Projetos – Finep, Fundação Florestal, Sabesp, Secretaria Estadual de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras de São Paulo, Secretaria de Energia de São Paulo e Emae.

Destes trabalhos resultaram 12 mapas temáticos, com identificação de 168 áreas prioritárias, 4 mapas regionais e 1 mapa com os resultados consolidados para a bacia, com 66 áreas, que foram apontadas pelos participantes como de importância para a conservação, recuperação e uso sustentável da Bacia Hidrográfica da Billings como manancial de abastecimento público. Cada uma destas áreas possui uma ficha com um conjunto de informações e recomendações de ação.

Dentre essas informações é possível verificar que a principal ameaça apontada pelos participantes é a expansão desordenada da ocupação urbana, constante em 33 das 66 áreas definidas como prioritárias na bacia, seguida dos impactos da construção do Rodoanel dentro dos limites da área de proteção aos mananciais, presente em 16 áreas prioritárias. Os participantes também apontaram problemas localizados que incluem processos erosivos, pesca e caça ilegal e impactos nos pontos de captação de água.

Além dos mapas, os especialistas produziram um conjunto de recomendações gerais para a bacia, que compreendem a implantação e ampliação das áreas protegidas sob a forma de Unidades de Conservação (UCs); um novo modelo de gestão, recuperação, manejo e operação do Reservatório Billings; estratégia de integração de políticas públicas para a gestão da Bacia Hidrográfica da Billings; desenvolvimento de alternativas econômicas compatíveis com a produção de água; fiscalização e monitoramento permanente do território; entre outras.

Billings: principais ameaças

  • A região vem sofrendo ao longo dos últimos anos as conseqüências de um processo acelerado de ocupação irregular. Estas invasões, apesar de identificadas pelo poder público, não têm sido eficientemente contidas, gerando uma sensação de impunidade que, por sua vez, estimula a ocorrência de novas agressões.
  • A principal tendência identificada no território da Bacia Hidrográfica da Billings, no período de 1989 a 1999, foi a substituição da cobertura florestal nativa (Mata Atlântica) por áreas ocupadas por atividades humanas, principalmente aquelas ligadas a usos urbanos.
  • Em 10 anos (1989-99) o manancial perdeu 6,6% de sua cobertura vegetal.
  • Estima-se que, entre 1989 e 1999, a Billings tenha sofrido crescimento urbano da ordem de 31,7%.
  • Mais de 45% da ocupação urbana registrada nos seis municípios da bacia se deu em áreas com sérias ou severas restrições ao assentamento. São encostas íngremes, regiões de aluvião ou de várzea que exigem cuidados especiais para implantação de qualquer tipo de ocupação urbana.
  • As taxas de ocupação urbana já são preocupantes, pois passaram de 11,8% do total da bacia em 1989, para 14,6% em 1999.
  • Entre 1991 e 2000, a população aumentou em 329 mil pessoas (crescimento de 62%).
  • A qualidade da água na represa Billings encontra-se bastante comprometida. Além da poluição proveniente do bombeamento do Tietê/Pinheiros, alguns braços apresentam situação crítica de eutrofização devido à grande quantidade de esgoto provenientes da ocupação em suas sub-bacias formadoras.
  • Na Bacia Hidrográfica da Billings, a construção do trecho Sul do Rodoanel afetará 49 sub-bacias, que representam 24,7% da área total de drenagem deste importante manancial. Destas, 29 sub-bacias serão cortadas pelo Rodoanel e, portanto, sofrerão impactos diretos e 20 sub-bacias, localizadas no entorno das diretamente afetadas, sofrerão impactos indiretos.
  • Os eixos de expansão urbana constituídos pelos atuais acessos a regiões ainda pouco ocupadas, e que terão seus efeitos intensificados com a construção do trecho sul do Rodoanel na região, estão levando a uma aceleração da urbanização da bacia, com o conseqüente risco de comprometimento em definitivo deste manancial estratégico para a Região Metropolitana de São Paulo.

Billings: histórico

A área ocupada atualmente pela Represa Billings foi inundada a partir de 1927, com a construção da Barragem de Pedreira, no curso do Rio Grande, também denominado Rio Jurubatuba. O projeto foi implementado pela antiga Light – “The São Paulo Tramway, Light and Power Company, Limited”, hoje Eletropaulo, com o intuito de aproveitar as águas da Bacia do Alto Tietê para gerar energia elétrica na Usina Hidrelétrica (UHE) de Henry Borden, em Cubatão, aproveitando-se do desnível da Serra do Mar.

No início dos anos 40, iniciou-se o desvio de parte da água do Rio Tietê e seus afluentes para o reservatório Billings, a fim de aumentar a vazão da represa e, conseqüentemente, ampliar a capacidade de geração de energia elétrica na UHE Henry Borden. Este processo foi viabilizado graças à reversão do curso do rio Pinheiros, através da construção das Usinas Elevatórias de Pedreira e Traição, ambas em seu leito. Esta operação, que objetivava o aumento da produção de energia elétrica, também mostrou-se útil para as ações de controle das enchentes e de afastamento dos efluentes industriais e do esgoto gerado pela cidade em crescimento.

O bombeamento das águas do Tietê para a Billings, no entanto, começou a mostrar suas graves conseqüências ambientais poucos anos depois. O crescimento da cidade de São Paulo e a falta de coleta e tratamento de esgotos levou à intensificação da poluição do Tietê e seus afluentes que, por sua vez, passaram a comprometer a qualidade da água da Billings. Nos primeiros anos da década de 70 a Cetesb – Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – é obrigada a iniciar as operações de remoção da mancha anaeróbica presente na Represa.

Em 1982, devido à grande quantidade de esgotos, que resultaram em sérios problemas de contaminação por algas cianofíceas, algumas potencialmente tóxicas, surge a necessidade de interceptação total do Braço do Rio Grande, através da construção da Barragem Anchieta, para garantir o abastecimento de água do ABC, iniciado em 1958.

Billings: números

  • Área da Bacia Hidrográfica da Billings: 58.280 hectares (582 Km²)
  • Área da represa: 10.800 hectares (18% da área da bacia)
  • Municípios parcialmente inseridos na área da bacia: cinco (Diadema, Ribeirão Pires, Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo)
  • Municípios totalmente inseridos na área da bacia: 1 (Rio Grande da Serra)
  • População abastecida pela represa (Braço do Rio Grande): 1,6 milhões
  • População residente na bacia: 860 mil pessoas
  • Área ocupada por atividades humanas: 27% da bacia
  • Área urbana: 20% da bacia
  • Área com vegetação natural: 54% da bacia
  • Volume de água produzido: 4,8 mil litros por segundo

Billings

A Represa Billings é o maior reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo. Seu espelho d´água possui 10.814,20 hectares, correspondendo a 18% da área total de sua bacia hidrográfica, que ocupa um território de 58.280,32 ha. (582,8 km²), localizado na porção sudeste da Região Metropolitana de São Paulo, fazendo limite, a oeste, com a Bacia Hidrográfica da Guarapiranga e, ao sul, com a Serra do Mar. Sua área de drenagem abrange integralmente o município de Rio Grande da Serra e parcialmente os municípios de Diadema, Ribeirão Pires, Santo André, São Bernardo do Campo e São Paulo.

De acordo com o Diagnóstico Socioambiental publicado pelo ISA em 2000, a Bacia Hidrográfica da Billings apresenta um quadro preocupante. Apesar de ser protegida pela Lei de Proteção dos Mananciais desde a década de 70, a região vem sofrendo ao longo dos últimos anos as conseqüências de um processo acelerado de ocupação irregular. Estas invasões, apesar de identificadas pelo poder público, não têm sido eficientemente contidas, gerando uma sensação de impunidade que, por sua vez, estimula a ocorrência de novas agressões.

A principal tendência identificada no território da Bacia Hidrográfica da Billings, no período de 1989 a 1999, foi a substituição da cobertura florestal nativa (Mata Atlântica), fundamental para a produção de água em quantidade e qualidade adequadas ao abastecimento público, por áreas ocupadas por atividades humanas, principalmente aquelas ligadas a usos urbanos. Este processo tem ocorrido através do surgimento de novas ocupações, consolidação da ocupação existente e transformação de áreas rurais em áreas urbanas.

No período analisado, o manancial perdeu 6,6% de sua cobertura vegetal. Em 1989, a área de cobertura florestal, composta de matas nativas (Mata Atlântica) e plantadas, respondia por 56,1% da Bacia; em 1999 recuou para 53,6%. A Mata Atlântica densa  primária e secundária nos estágios médio e avançado de regeneração é o tipo de cobertura vegetal que mais foi atingida pelo desmatamento, perdendo aproximadamente 2.000 hectares no período.

Estima-se que, entre 1989 e 1999, a Billings tenha sofrido crescimento urbano da
ordem de 31,7%. Mais de 45% da ocupação urbana registrada nos seis municípios paulistanos da bacia se deu em áreas com sérias ou severas restrições ao assentamento. São encostas íngremes, regiões de aluvião ou de várzea que exigem cuidados especiais para implantação de qualquer tipo de ocupação urbana. Apenas 11,8% da mancha urbana se deu em áreas consideradas favoráveis. Estes números demonstram que além de extremamente acelerada, esta ocupação vem ocorrendo sem nenhum planejamento.

Além destes aspectos, o fato das áreas urbanas não consolidadas terem apresentado uma porcentagem de crescimento significativamente superior ao das áreas urbanas consolidadas, respectivamente 47,9% e 27,3% no período, indica que o processo de urbanização está em expansão na bacia. Sendo assim, o problema tende a se agravar caso não sejam adotadas medidas urgentes para reverter esta tendência.

O estudo mostra, ainda, que as taxas de ocupação urbana já são preocupantes, pois passaram de 11,8% do total da bacia em 1989, para 14,6% em 1999. As construções não autorizadas figuram no topo das ocorrências irregulares, respondendo por 41% dos 988 registros efetuados no período de 1989 a 1999. Em segundo lugar aparecem os movimentos de terra, tais como abertura de estradas e terraplanagem com 26%, numa listagem composta de oito tipos de ocorrências.

Em 2000, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, a população residente na região é de 863 mil, distribuídos nos seis municípios nela inseridos, principalmente em São Paulo e São Bernardo. No mesmo ano, a população residente em favelas é estimada em 161 mil (ou 19% do total). Entre 1991 a 2000, a população aumentou em 329 mil, um acréscimo de 62% e o crescimento da população favelada foi de 86 mil (acréscimo de 115%), que corresponde a 26% do crescimento na Bacia.

A partir dos levantamentos realizados junto aos órgãos governamentais, foram identificados 90 processos de mineração cadastrados dentro da área da Bacia Hidrográfica da Billings. Embora apenas sete estejam licenciados, abrangendo uma área total de 2.079,01ha, outros 13.076,38 ha estão sendo requeridos para pesquisa. Sendo assim, caso todos os processos atualmente em tramitação cheguem à etapa de concessão de lavra ou regime de licenciamento, a Bacia Hidrográfica da Billings terá 26,16% de sua área sob algum tipo de exploração mineral.

Outro aspecto que contribui para agravar o quadro é que a qualidade da água na represa Billings encontra-se bastante comprometida. Além da poluição proveniente do bombeamento do Tietê/Pinheiros, alguns braços apresentam situação crítica de eutrofização devido à grande quantidade de esgoto provenientes da ocupação em suas sub-bacias formadoras.

Finalmente, é importante destacar que os eixos de expansão urbana constituídos pelos atuais acessos a regiões ainda pouco ocupadas, que terão seus efeitos intensificados com a construção do trecho sul do Rodoanel na região, estão levando a uma aceleração da urbanização da bacia, com o conseqüente risco de comprometimento em definitivo deste manancial estratégico para a Região Metropolitana de São Paulo.

Leis 898/75 e 1.172/76

Esta legislação teve o objetivo de orientar a ocupação das bacias hidrográficas. Para tal, delimitou as áreas de mananciais – que correspondem a mais de 50% da RMSP – e estabeleceu duas categorias de proteção e parâmetros de uso e ocupação do solo, de forma a evitar o adensamento populacional e poluição das águas. A delimitação das áreas de mananciais, bem como das categorias e classes de uso, foi feita a partir de levantamento aerofotogramétrico datado de 1974.

Primeira categoria
Compreendem áreas ambientalmente sensíveis e com papel importante no processo de produção de água. Entre elas, cabe destacar: as margens da represa e faixas ao longo dos rios e córregos, que são fundamentais para evitar contaminação direta e assoreamento; as áreas cobertas por matas, por garantir maior permeabilidade do solo e infiltração da água da chuva; áreas com altas declividades, de forma a evitar processos erosivos.

Por sua fragilidade e importância, nas áreas definidas como de 1ª Categoria são permitidos, exclusivamente: (i) excursionismo, excetuado o campismo; (ii) prática de esporte desde que não exija construção de edificações permanentes; e (iii) serviços, obras e edificações destinadas à proteção aos mananciais, à regularização de vazões, ao controle de cheias e à utilização das águas para abastecimento e lazer sob controle.

Segunda categoria
Na época de aprovação da lei, as áreas de mananciais já sofriam com o processo de ocupação urbana. No sentido de ordenar tal ocupação, e conseqüentemente, minimizar seus impactos sobre os mananciais, foram delimitadas as áreas de segunda categoria, onde praticamente todos os tipos de uso do solo eram permitidos, desde que implantados de acordo com os parâmetros urbanísticos definidos pela lei.
Usos permitidos nas áreas de 2ª categoria: residencial; industrial (de acordo com uma relação de indústria constante na Legislação de Zoneanento Industrial); comercial; serviços, exceto equipamentos de saúde pública que não se destinem ao atendimento das populações locais; institucional; lazer; hortifrutícola; florestamento, reflorestamento e extração vegetal.

A implantação das atividades, por sua vez, varia de acordo com sua proximidade em relação ao manancial protegido. Esta diretriz resultou na delimitação de três classes ou faixas de segunda categoria, e parâmetros urbanísticos, densidades populacionais e taxas de impermeabilização para cada uma delas. As principais características de cada classe são apresentadas a seguir:

Classe A: compreendia as áreas arruadas e ocupadas com densidade demográfica superior a 30 hab/ha em 1974. Posteriormente à aprovação da lei, a densidade máxima permitida passou a ser de 50 hab/ha;
Classe B: áreas contíguas à Classe A, destinadas à expansão urbana, densidade varia entre 25 e 34 hab/ha;
Classe C: demais áreas de segunda categoria, com densidades entre 6 e 24 hab/ha

Seminário Guarapiranga 2006

O Seminário Guarapiranga 2006 , realizado entre os dias 30 de maio e 1º de junho, no Solo Sagrado de Guarapiranga, em Parelheiros, teve como principal objetivo a proposição de ações, internas e externas à bacia, para viabilizar a Guarapiranga como manancial produtor de água de boa qualidade para o abastecimento público. Para tal, contou com a participação das organizações da sociedade civil, do poder público estadual e municipal, das comunidades empresarial, científica e acadêmica e de movimentos sociais e moradores da região.

Com duração de três dias de imersão total, o seminário reuniu 162 especialistas, que trabalharam em grupos para discutir questões e apontar soluções para os problemas que incidem sobre a região. No primeiro dia, os participantes do seminário foram divididos por eixos temáticos, no dia seguinte em grupos por sub-regiões da Bacia Hidrográfica da Guarapiranga. No terceiro e último dia, foi realizada plenária de discussão dos resultados, definição das principais recomendações e do conteúdo da Carta da Guarapiranga, uma carta de princípios para os próximos 100 anos da represa. Nos meses seguintes ao seminário foram realizados ajustes nas propostas a partir de consultas aos integrantes dos grupos. Em agosto de 2006, os participantes se reuniram no Senac para verificar os mapas e aprimorar as propostas.

Destes trabalhos resultaram 63 propostas de ação. As propostas, de acordo com suas linhas de ação prioritárias, podem ser agrupadas em: aprimoramento de gestão (19); proteção através da ampliação de áreas protegidas (10); saneamento ambiental das áreas urbanizadas (11); participação dos atores sociais nos processos de tomada de decisão (5); incentivo ao uso sustentável e à implantação de atividades compatíveis com a produção de água no território (11); valorização dos serviços ambientais (3) e medidas para minimizar os impactos que o Rodoanel já está causando na região (4). Cada uma das propostas foi detalhada em mapa e banco de dados, e contém metas de realização e responsáveis, tornando-se um rico instrumento para a definição de agendas diferenciadas por ator. Além do conjunto de propostas de ação, o seminário teve como produto a Carta da Guarapiranga: Água boa para os próximos 100 anos da represa.

Entre as principais recomendações do seminário, estão: reorientar o crescimento da RMSP para as áreas já dotadas de infra-estrutura; valorizar os serviços ambientais prestados pelos mananciais para a cidade; implantar saneamento ambiental nas áreas urbanizadas; fomentar atividades compatíveis com a produção de água; garantir participação social na gestão dos mananciais; reverter investimentos e ações promotoras de degradação e exigir ações para mitigar os impactos que o Rodoanel está causando na região.

Clique aqui para fazer o download da publicação “Seminário Guarapiranga 2006 – Proposição de ações prioritárias para garantir água de boa qualidade para abastecimento público”, que traz os principais resultados e as 63 propostas de ações produzidas no Seminário.

Guarapiranga: principais ameaças

A qualidade das águas dos rios e da represa piora ano a ano. Segundo matérias veiculadas na imprensa, a água bruta da Guarapiranga é uma das mais sujas entre os mananciais de abastecimento.

Entre 1998 e 2003, o custo de tratamento da água da Guarapiranga subiu 133% (Estado de São Paulo, 25/08/06).

No período entre 1989 e 2005 a área ocupada pelo espelho d’água do reservatório diminuiu consideravelmente. Pode ser um reflexo do período de estiagem pelo qual a RMSP vem passando desde 1999, mas também pode estar associada ao assoreamento e exploração do reservatório além da sua capacidade natural.

Apenas a metade dos habitantes da região tinha algum sistema de coleta de esgotos em 2000 (Censo IBGE) e a maioria do esgoto coletado continua sendo despejada na represa.

Em 2003, mais da metade da área da Bacia Hidrográfica da Guarapiranga encontrava-se alterada por atividades humanas. Parte dessa alteração (17%) diz respeito aos usos urbanos, e o restante a usos diversos, como agricultura, mineração e solo exposto.

Entre 1989 e 2003, as áreas urbanas aumentaram em 19%, e mais da metade deste crescimento se deu sobre áreas com severas restrições à ocupação.

Parcela significativa das áreas de preservação permanente (APPs) encontra-se ocupada por usos humanos, com sérias conseqüências para a produção de água.

A população que vive ao redor da represa aumentou em quase 40% entre 1991 e 2000 e é estimada em quase 800 mil pessoas.

O trecho sul do Rodoanel Mário Covas vai impactar 12% da área da Bacia Hidrográfica (área de influência direta – faixa de 500 metros ao longo de todo o traçado).

O Rodoanel terá alto potencial de indução à ocupação na região, pois cria novas rotas de acesso e circulação na RMSP, corta e conecta todos os principais eixos de expansão urbana da região – estrada do M’Boi Mirim, estrada de Itapecerica da Serra e Av. Sadamu Inoue.

Guarapiranga: números

  • Área da Bacia Hidrográfica da Guarapiranga: 63.911 hectares (639 Km²)
  • Área da represa: 2.600 hectares (4% da área da bacia)
  • Municípios parcialmente inseridos na área da bacia: cinco (Cotia, Embu, Juquitiba, São Lourenço da Serra, São Paulo)
  • Municípios totalmente inseridos na área da bacia: 2 (Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra)
  • População abastecida pela represa: 3,8 milhões
  • População residente na bacia: 800 mil pessoas
  • Área ocupada por atividades humanas: 59% da bacia
  • Área urbana: 17% da bacia
  • Área com vegetação natural: 37% da bacia
  • Volume de água produzido: 14 mil litros por segundo

Guarapiranga: histórico

A represa da Guarapiranga foi construída através do represamento do Rio Guarapiranga pela Companhia Light & Power com finalidade energética. A construção da barragem foi iniciada em 1906 e terminou em 1909. O lago ficou com um perímetro de 85 km, inundando uma área de 34 km² (3.400 hectares). Na sua parte mais funda, perto da barragem, a profundidade era de 13 m de profundidade, e no restante a média era de 6 m.

A partir de 1928, a represa da Guarapiranga tornou-se a principal fonte de água para abastecimento público de São Paulo, mediante o fornecimento de 86,4 milhões de litros de água por dia (vazão média de 1 m³/s) para a estação de tratamento de água de Teodoro Ramos.

Em 1958, com a construção da estação de tratamento do Alto da Boa Vista, a represa passou a fornecer 9,5 m³/s, tornando obrigatória a elevação do nível da lâmina d’água. Na época das cheias, o reservatório era mantido em níveis bem abaixo do máximo, possibilitando a regularização das enchentes. Quando havia excesso de chuva, eram utilizados os descarregadores de fundo, que são os túneis que ligam a represa ao canal do Pinheiros.

Em 1976 houve uma cheia excepcional. O nível da represa subiu tanto que foi preciso reforçar a barragem com sacos de areia, bem como reformular o sistema de extravasamento de água para que não houvesse transbordamento e inundação da região de Socorro, ou pior ainda, ruísse a barragem. Se isso acontecesse, a área alagada se estenderia até a região da Avenida Brasil.

Eventos históricos também tiveram palco nas águas da Guarapiranga. Digno de nota é o pouso do aviador italiano De Penedo na primeira travessia do Atlântico Sul em 1926. A prática de iatismo na represa também merece destaque e vários campeões olímpicos brasileiros fizeram escola nas suas águas.

A tendência de ocupação do entorno da represa foi marcada, na década de 20, por edificações residenciais e clubes, atraídos por ofertas de lazer e pela qualidade da paisagem. Os loteamentos da década de 30 e 40 deram continuidade aos loteamentos com a mesma finalidade, mas com maior oferta de lotes. Nos anos 50 e 60, aumentam as ofertas de loteamentos residenciais. Também eram comuns na região as chácaras, marinas e até instalações religiosas.

Os primeiros alertas para a degradação da qualidade da água e da região da bacia foram feitos na década de cinqüenta, quando a Sociedade Amigos de Interlagos já pedia a construção de um coletor (ou interceptor) de esgotos na margem direita.

A partir da década de 70, núcleos urbanos precários começam a se instalar no território, caracterizados por lotes menores, inexistência de infraestrutura e densidades populacionais maiores. No final dos anos 80, a ocupação do entorno já causa impactos na represa. As florações de algas – resultantes da grande quantidade de matéria orgânica proveniente do despejo de esgotos na água – causam entupimentos dos filtros na captação de água e ameaçam o abastecimento de água de três milhões de pessoas. Uma grande mortandade de peixes, noticiada em todos os veículos de comunicação, deu o alerta sobre a saúde da represa.

Naquele momento, o governo estadual iniciou a elaboração de um programa de recuperação ambiental da região. Este programa, conhecido como Programa Guarapiranga, foi implantado durante a década de 90 e contou com recursos do Banco Mundial. Foram investidos mais de US$ 300 milhões na região, principalmente em redes de esgoto e reurbanização de favelas.

Os investimentos, no entanto, se mostraram insuficientes, uma vez que a qualidade da água piorou ao longo dos anos e a quantidade de água disponível encontra-se cada vez mais comprometida em função dos diversos processos de degradação existentes, entre eles erosão, assoreamento, poluição, desmatamento e retirada de grandes volumes de água da represa para abastecimento.

Com o objetivo de regularizar a vazão da Represa Guarapiranga, que já vinha sendo explorada acima de sua capacidade ao longo dos anos, foi construída a interligação do braço Taquacetuba da represa Billings com o rio Parelheiros, afluente da margem direita da Guarapiranga. O projeto previa a adução de dois mil litros por segundo, em uma primeira etapa, quantidade que, após a realização de testes para a comprovação de que a transposição traria impactos positivos para a Guarapiranga, poderia dobrar. Em função dos períodos de estiagem dos últimos anos, o Taquacetuba vem sendo usado no máximo de sua capacidade.